A vida por um fio

Homem por um fio

Andar pelas ruas de São Paulo é uma aventura, nem sempre agradável.

Para quem é de fora ou para quem não sabe, São Paulo tem, a rigor, três centros.

O “centro velho” é o centro histórico, donde se encontra a Catedral da Sé, marco zero da cidade, pertinho do Pátio do Colégio, onde os jesuítas começaram a ocupar o lugar dos índios e ergueram uma parede que está lá até hoje.

O “centro novo” não é nada novo, desenvolveu-se com a instalação do viaduto do Chá, a construção do Teatro Municipal e a urbanização da Praça da República – uma ex praça de touros -, cujo desenho e paisagismo poderia ser uma coisa linda, mas não é, posto que está desde sempre mal cuidada e suja.

E tem o chamado “centro financeiro” da cidade, que nada mais é que a avenida Paulista.

A geografia do miolo principal da cidade de São Paulo é na verdade muito simples, delimitado por dois rios: Tietê ao norte, de onde se chega rapidamente aos centros velho e novo, o espigão da Paulista lá alto de uma coluna cortando a urbe de leste a oeste, e os Jardins descendo na direção sul sudoeste, até chegar ao rio Pinheiros – os pontos cardeais não são muito precisos, mas é por aí.

Agora, a geografia humana da cidade de São Paulo é muito, muito complexa.

Vai dar uma voltinha pelos três “centros” que isto fica rapidamente evidente, na cara.

Ontem fiz isso, por motivos diversos andei a pé e de metrô pelos centros e depois pela Paulista, voltando à região central, onde moro, muito perto do símbolo da excrescência urbana paulistana que é o Minhocão.

Seja em qual canto for, a cidade assusta.

Pelo número de pessoas circulando, pelo número excessivo de carros tentando circular, pelas calçadas esburacadas e lotadas, pelo transporte subterrâneo entupido de gente que também circula mal.

E pela pujança que se traduz em prédios gigantescos, comércio alucinadamente variado e em contrastes, gigantes, surpreendentes, invasivos contrastes.

Da imensa fila de pessoas diante da placa de “precisa-se de auxiliares” na República ao rio humano transbordante da ligação subterrânea entre as linhas verde e amarela do metrô; dos executivos desfilando seus ternos bem e mal cortados nas cercanias da Fiesp aos deserdados que fazem das calçadas da cidade sua própria casa, a vida pulsa, mas parece que está sempre por um fio.

Por um fio como o operário da minha foto aí em cima, solitário higienista de uma urbe encardida no seu cinza eterno.

Mas há um denominador comum a todos os centros e a todos os cantos, que é sintetizado nos baixos do Minhocão: os moradores de rua.

Estão por todo canto desde há muito, fazem parte da paisagem paulistana.

Mas nesta época do ano – o frio chegou a 13 graus esta semana – eles se tornam mais carentes, evidentes, notáveis em seu anonimato.

Seja se multiplicando nos cruzamentos e esquinas pedindo um trocado, seja se enrolando em cobertores imundos e papelões velhos nos cantos e desvãos, não menos sujos.

E o Minhocão, sempre ele, se converte, sobretudo nas noites geladas, na grande vitrine da desigualdade e do desterro.

Eu moro perto do Minhocão há 13 anos, mas circulo por suas redondezas há muito tempo, mais de 30 anos.

Neste período já “comandaram” esta cidade insana Reynaldo de Barros, Salin Curiati, Mario Covas, Jânio Quadros, Luiza Erundina, Paulo Maluf, Celso Pitta, Régis de Oliveira (apenas um mês no cargo), Marta Suplicy, José Serra, Gilberto Kassab e atualmente Fernando Haddad.

Como se vê, partidos, tendências políticas, estatura moral, visão de mundo bem diversas, divergentes ou não.

Mas nenhum deles conseguiu dar um jeito de tirar este número cada vez maior de pessoas – sim, são pessoas, não andrajos – do relento.

Uma remediada aqui, um improviso ali, mas resolver resolver mesmo…

Anos atrás, um amigo então ligado à Prefeitura me disse que há na cidade mais vagas em abrigos do que gente morando de fato na rua – boa parte daqueles que andam pelo centro moram longe e pessimamente, em barracos mal ajambrados nas franjas da cidade, preferem dormir na rua e mais perto de comida e algum dinheiro.

O problema, dizia meu amigo, é que você não pode obrigar os moradores de rua a irem para os abrigos, vão apenas se quiserem ir, e, segundo consta, não querem.

Conforme levantamento realizado no ano passado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – Fipe o número de pessoas em “situação de rua” chega a 16 mil. Em 2000 era metade disso. E claro que a população da cidade cresceu na mesma proporção, o que seria uma justificativa.

E justificativas há muitas (toda cidade do mundo tem gente morando na rua, é a crise, o desemprego blablablá), mas o que não há é solução, como se fosse assim mesmo e assim acaba ficando.

Qual a solução? Eu não sei, mas também não me candidato a prefeito nem sou nomeado secretário, que têm a obrigação de encarar este e tantos outros problemas da cidade.

Mas o fato é que este problema é desumano, vergonhoso e urgente, dói na vista e no coração.

Pior que isso só a maneira como tratamos nossas crianças e nossos idosos nesta São Paulo de Piratininga.

Mas esta é uma outra história que fica para uma outra vez…

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2 pensamentos em “A vida por um fio”

  1. ´OTIMO, triste e urbanamente terceiro-mundista esse texto. Talvez até pessimista. Aliás, bastante pessimista, principalmente por estar inacabado. Mesmo assim, a foto do cara pendurado em vários tons de cinza é, como diria a Sontag, cinquenta por cento do texto em si.
    Mas ” Pior que isso só a maneira como tratamos nossas crianças e nossos idosos nesta São Paulo de Piratininga.” deixa um gosto mais amargo ainda a essa matéria não é, Caversan? Talvez pelo fato de vc te-la escrito ainda com jet lag ou com as impressões ultra clean do Canadá ….onde onde o buraco do cinto é feito na medida da fivela e nem um milimetro a mais….

    É bom ter um blog assim.
    É maravilhoso.

    Parabens.

    LOVE
    Gerald

    1. Gerald, querido, infelizmente não há como não ser pessimista ultimamente e urbanamente. Hoje, por outros motivos, andei bastante por Pinheiros. Cara, muita, muita gente dormindo na rua, uma coisa assustadora! Não era assim! Da próxima vez que você vier pra cá vamos dar umas voltas por aí. Conheço São Paulo como a palma da minha mão, na verdade foi office-boy, o que obviamente me levou a ser repórter. São Paulo nunca me assustou. Hoje assusta…

      Bacio

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