Um bom dia para recomeçar

Depressão, corações partidos, relacionamentos bons e maus, injustiça social, desvalidos e desesperados, exemplos de vida, a alegria de saber rir de si próprio, liberdades democráticas, sexuais e artísticas, lamentos de morte, intolerâncias e pluralidades, desalento sem nunca perder a fé, um olhar humilde mas generoso sobre a vida que nos cerca aqui, ali, acolá.

Estas sempre foram as inspirações que me levaram a ocupar desde julho de 2000 espaço que mantive até este sábado, 16 de abril, no site da Folha de S. Paulo.

São quase 16 anos, quase 800 crônicas, quase uma vida. Meia vida da minha filha, quatro vezes a vida do meu neto, uma vida que ajudou a fazer a minha própria vida valer a pena.

Daí a necessidade de recomeçar, não mais na seção destinada aos colunistas da Folha, mas sim, agora, neste Blog do Caver.

Minha mãe, que Deus a tenha, me chamava de Luiz Carlos quando estava brava comigo, e eu morria de medo. Meus amigos queridos me chamam de Caver, daí o nome e a intenção do novo espaço na internet que passo a ocupar, porque, afinal, o que será da vida sem amigos?

Amigos, conhecidos e nem tanto, que tantas e tantas vezes procuraram na coluna da Folha um alento para enfrentar o “mal do século”, a depressão, doença com a qual eu mesmo aprendi a conviver depois de um surto no final dos anos 90 e a partir de quando passei a estudar o assunto. Aprender e compartilhar…

Nos primeiros tempos, as pessoas, assim como eu mesmo, tinham vergonha de falar da sua depressão, o desconhecimento imperava, o tema tabu assustava, e os “outros”, além da vergonha alheia, ostentavam uma enorme ignorância quando falavam daquela pessoa triste, desesperançosa, abatida aparentemente sem motivo. Isso mudou bastante.

Tive o privilégio, nestes anos todos, de aprender muito sobre o tema, me amparar em especialistas generosos que me orientaram e assim colaborar para que o preconceito contra a depressão – e contra o transtorno bipolar, a ansiedade, e outros des-afetos contemporâneos – deixassem o canto escuro da sala e fossem para o centro de discussões, dos debates, das análises, no âmbito dos relacionamentos sociais adultos e consequentes.

Ainda há muito a conquistar, mas estamos muito melhor do que uma década e meia atrás, e é preciso avançar.

Portanto, assim como os chamados transtornos afetivos, entre os quais se inclui a depressão, todos os demais temas listados aí em cima estarão presentes no blog que você está lendo agora.

É preciso, neste recomeçar, ir muito adiante, dizer o que precisa ser dito sobre estas pessoas que não se encaixam nos massacrantes padrões da “normalidade”, sobre a criança que mora na rua, a cidade que se autodevora, o homem mau e suas máquinas destruidoras de cidadania, o homem bom e os alentos que nos proporcionam com seus exemplos; divulgar a ciência, a tecnologia e o conhecimento, para que ele seja colocado a serviço do que ainda nos resta (e não é pouco…) de humanidade.

Coruja

É preciso, também, certamente, lembrar sempre para não esquecer nunca; lembrar de onde viemos, dos valores que nos construíram, lembrar de como era boa e linda a cidade que teimamos em tornar pior, de como ela pode ainda ser boa e linda, lembrar dos tempos sinistros da ditadura que marcou gerações recentes, das misérias materiais e espirituais, e ter um olhar contextualizado sobre o país que encontramos hoje à nossa frente.

O “país do futuro” está tragicamente dividido, e o símbolo maior disso é o muro montado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, supostamente para conter o confronto entre manifestantes (como se pode ver acima na emblemática foto de Ricardo Stuckert) . Um muro vergonhoso que remete, não tem como, ao muro de Berlim, ao muro da fronteira México-EUA, ao muro de Gaza e a todos os outros muros que foram erguidos e eventualmente vierem a sê-lo para separar, excluir, evidenciar concretamente a cisão e o ódio que pode advir da simples divergência.

Sim, hoje é um bom dia para recomeçar, num novo endereço, com as portas abertas para novos amigos. Apesar do coração apertado pelo clima beligerante em que o país se encontra, ouso apostar no diálogo, na tolerância e na esperança.

Aos que quiserem compartilhar estes sentimentos, a partir de agora estarei neste blogdocaver.com.br.

E vamos em frente.

PS – A minha foto é, com muito orgulho, de autoria do melhor repórter fotográfico do Brasil, Jorge Araújo, meu amigo.

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11 pensamentos em “Um bom dia para recomeçar”

  1. Sua coluna sempre foi inspiradora.Grato pelo que nela vc ensinou a todos nós e a mim que nelas muito aprendi.Felicidades na nova empreitada.Um local equilibrado para discutir Depressão trará enorme bem para as pessoas,que pelo que vc relata,foi o que vc aprendeu com sua mãe. e exerceu com brilhantismo na sua coluna.

  2. Caversan querido,
    Teria como “importar” esses 16 anos de colunas para esse blog ou são de propriedade intelectual da Folha? No meu caso, o meu blog começou no UOL – O Caio Tulio e a Marion compraram meu passe + o do Tas até (não sei ao certo)….até….o Caio ir pro IG – e quando migrou pra lá, levou meu blog pra lá.

    Depois de 2 anos e muito be pago, mudou a cúpula em DF e sairam todos. Migrei pro WordPress e trouxe TUDO, desde o inicio.

    Enfim é somente uma pergunta.

    Ao mesmo tempo, deve ser maravilhoso começar “do zero”, fresco e sem frescuras.
    LOVE
    Gerald

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