Um argentino que sabia tudo de cinema e de Brasil

"Pixote" e Marília Pera, na cena mais dramática do filme de Babenco
 Marília Pera, na cena mais dramática do filme “Pixote”

Pouco menos de um mês atrás, num sábado ensolarado e fresco de junho, fui almoçar em um simpático restaurante português que fica num canto sossegado dos Jardins, em São Paulo.

No meio de nossa refeição, chega Hector Babenco e sua mulher, a atriz Barbara Paz, e sentam-se numa mesa não muito longe da nossa.

Ele caminhava com dificuldade, apoiado em uma bengala, aboletou-se na mesa e acabou ficando de costas para mim, impossível dar um oi à distância.

Se tem uma coisa que eu detesto, tanto para mim mas principalmente para os outros, é interromper refeição para bater papinho, um sentado outro em pé, chato e constrangedor, sobretudo quando isso envolve gente famosa.

– Eu queria dar um alô pro Babenco, mas não estava afins de incomodá-lo,  disse à Nelcy, minha mulher.

– Vai lá, sim, ele vai gostar – ela me disse.

Continuei comendo e bebendo (um vinho alvarinho bem meia-boca, aliás) e pensando: vou, não vou, vou, não vou…

Eis que a Barbara se levanta, provavelmente para ir ao toalete, e lá está ele, ainda de costas, mas sozinho.

Antes de tomar a decisão de finalmente ir cumprimentá-lo, um filme rapidamente passou pela minha cabeça.

Neste filme, “rodado” em 1980, estava sentado à minha frente o diretor de cinema Hector Babenco, que morreu na noite desta quarta-feira, o ator mirim Fernando Ramos da Silva, mais alguém da equipe deles e outros “figurantes”, digamos assim, todos em volta da mesona da sala de reuniões do jornal “O Estado de S. Paulo”, que à época só era chamado de “Estadão” pelos íntimos.

O motivo do encontro era o lançamento um dos melhores filmes já feitos neste país, “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, dirigido por Babenco, estrelado pelo garoto magrelo ali na minha frente e pela grande Marilia Pera, que infelizmente não estava presente.

O filme que passava na minha cabeça naquela tarde de sábado cortou rapidamente para uma outra cena, de uma outra obra de Babenco, “Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia”. Nesta, o personagem principal, um famoso ladrão (interpretado com genialidade por Reginaldo Farias) que foi perseguido e torturado pelas forças do Estado e que nunca se acertou com os “homens” para roubar em paz, diz o seguinte: “Polícia é polícia, bandido é bandido”. Justificava sua atitude meio suicida e totalmente destoante do ambiente de então e também, até certo ponto, de agora, em que polícia e bandido (assim como bandido e político…) podem ser uma coisa só.

O meu filme particular segue em frente, enquanto observo as costas arqueadas de Babenco, envergando um casaco bege um pouco quente demais para a temperatura ambiente, e a cena que observo então é pavorosa: o chão de uma ala do principal presídio de São Paulo, o Carandiru, coberto por uma maré vermelha. Sangue, muito sangue, jorros do sangue dos 111 presos assassinados pela PM paulistana, sem possibilidades de defesa, como se provou depois, na maldita invasão de 1992, fielmente retratada no livro do Dráuzio Varela e magistralmente levado ao cinema pelo Babenco.

Assim que terminou de passar pela minha cabeça esta cena, e antes que a mulher do cara voltasse, eu disse à minha companheira:

– Eu vou lá

E levantei e fui e toquei levemente no ombro dele e fiz facilmente com que ele se lembrasse de mim, daquela entrevista de tantos anos atrás, de outros (poucos) encontros profissionais ou não, falei de como eu o admirava e de como seus filmes sempre foram marcantes para mim.

– Você já viu meu último filme?

– Não vou mentir pra você, não vi, não…

– Acabou de sair em DVD, me mandaram esta semana. Veja, espero que você goste…

– Com certeza vou gostar (também sou fã do Willem Dafoe…), vou ver logo. Bom almoço, Hector.

– Muito obrigado pelo carinho, querido…

Claro que eu lembrei dessa conversa hoje cedo quando li um post do Gerald Thomas lamentando a morte do Babenco. Claro que me deu um frio na espinha: já pensou se eu não tivesse ido falar com ele, que tristeza seria?

E não teria como deixar de pensar no seguinte: interessante como um intelectual argentino que se naturalizou brasileiro teve, em três grandes momentos de sua carreira, uma capacidade tão grande de retratar a alma deste país em particularidades nada lisonjeiras, mas necessárias de serem enfrentadas: a truculência e a corrupção policial em plena ditadura militar, mostrada de maneira crua e direta (“Lúcio Flávio”, 1977), o malfadado destino dos meninos de rua desenhado com lirismo, poesia e respeito, sem perder a carga dramática (“Pixote”, 1980) e o escândalo, o horror, a desumanidade do sistema prisional brasileiro e, mais uma vez, da truculência policial, reproduzidos como um soco no estômago, com toda sua variação cromática, sempre em magenta, a cor do sangue derramado aos borbotões em meio à fumaça da pólvora dos disparos covardes (“Carandiru”, 2003). Ainda e sempre, tudo entremeado por lirismo, poesia e técnica apurada na construção de personagens únicos.

Ainda não vi o que Babenco “fez” com Williem Dafoe em “Meu Amigo Hindu”, vou ver logo. Mas certamente encontrarei ali o talento incomensurável de quem teve a manha de conduzir gente como Jack Nicholson, Meryl Streep, Raul Julia, William Hurt, Sonia Braga, Marília Pera,Tom Waits, John Lithgow, Tom Berenger, Gael Garcia Bernal e todo o fantástico e riquíssimo elenco de “Carandiru”.

Outro dia você me disse: “Obrigado pelo carinho”.

Eu é que agradeço, Hector Babenco…

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