A rede que nos protege

A zona de conforto que se forma em torno dos pequenos negócios locais aproxima as pessoas, promove afetos e torna a vida mais saudável

Morei na Itália quase um ano, final dos 1990, período sabático, estudar italiano e aprender culinária e história da arte –aprendi pouco de tudo.

Em Firenze (ou Florença), morava longe do centro turístico, via San Nicolò, do outro lado do rio Arno, num estúdio reformado no último pavimento de um edifício de três andares construído em 1420 – 80 anos antes do Brasil ser descoberto.

No térreo do meu prédio havia um misto de quitanda com mercearia.

Tinha sido de um casal que envelhecera e estava então passando o negócio para a filha e o genro. Todas as manhãs, a moça abria a pequena porta para receber as mercadorias, fornecidas também por pequenos comerciantes dos arredores – verduras e legumes frescos, ovos, alguma carne, embutidos, leite, macarrão, pão, vinho e alguns doces.

Tudo vinha em pequenas quantidades, porque eram coisas para serem vendidas naquele mesmo dia. Não havia estoque, não precisava disso: os compradores eram moradores do bairro – inclusive eu -, que adquiriam apenas o que iriam consumir naquele dia. No dia seguinte haveria disponíveis novamente produtos frescos, pra que guardar?

A freguesia era local, fiel e barulhenta. Não apenas comprava, mas discutia política, economia, futebol, a vida dos outros, chamava-se pelo nome (o da moça era Carmela, o do pai, sempre sentado emburrado num banquinho à entrada do estabelecimento, nunca ousei perguntar; no máximo arriscava um buon giorno…).

O forte do movimento era mesmo pouco antes do almoço, quando a lojinha lotava e a mercadoria ia embora. Depois do meio dia, a porta fechava, Carmela ia cuidar, também ela, do almoço da família, depois vinha a siesta, para tudo recomeçar por volta das 5 da tarde, com o movimento em direção ao jantar.

Com o tempo e com a frequência que mantive percebi que aquilo não era apenas um negócio, mas um estilo de vida.

Como aquele, existiam dezenas de comércios familiares nos bairros todos, em torno dos quais formava-se uma rede de relacionamentos que ia muito além do funghi, da pasta e do pomodoro. Da comida ao afeto, à amizade, a um jeito de levar a vida próximo de seus próximos. Sem pressa, sem avidez, sem a necessidade da expansão e do lucro, preservando valores que, em última análise, consistia na zona de conforto daquela gente.

Por que estas lembranças todas? Porque o governo do Chile, informa o jornal digital nexo, está justamente abrindo um programa para estimular e dar sustentação a este tipo de negócio: o pequeno comerciante, o pequeno produtor, a pequena rede de consumidores, cuidando do bairro, da vila, para cuidar do país.

Na minha infância havia quitandas e mercearias onde se chamava o português pelo nome e se anotava a compra na caderneta para pagar no fim do mês. Não tenho saudades daquele tempo, só penso que era diferente, melhor sem dúvida do que que a relação insípida e impessoal que (não) tenho com os atendentes do supermercado que frequento – às vezes “frequento” até por meio do meu computador…

As mercadorias não veem das hortas dos arredores, porque não há arredores, tampouco leiteiros, vinhateiros, hortelões e quetais – há até um movimento, insípido, surgindo nas cidades brasileiras em torno dos orgânicos, mas isso é outra história.

No Chile, retomar esta rede de proteção alimentar e familiar é programa de governo; além da alimentação certamente protegerá a relação das pessoas, aproximando-as ou impedindo que se afastem.

Impedindo que não deixem de se enxergar: outro dia na fila do supermercado, um senhorzinho tentou de todo modo puxar uma conversa, em vão, uma, duas, três vezes com a moça do caixa e com o rapaz do pacote.

Mas eles não falam com estranhos…