Violência, sua linda

Por que as pessoas são violentas, odeiam, agridem, ofendem? Por que assim elas se sentem bem, porque é bom para elas.

Em uma cena triste do filme “O Jogo da Imitação”, Alan Turing, o homem que praticamente inventou o computador e decifrou os códigos de guerra nazistas, mas mesmo assim foi perseguido até a morte em seu próprio país por ser homossexual, diz o seguinte à sua assistente: “Você sabe por que as pessoas gostam violência? Porque é bom.”

Depois de tomar muita bordoada a vida toda por ser genial, esquisito e “bicha”, ele aceitava aquela constatação como algo natural do ser humano, que sente-se bem causando o mal, impingindo a dor, violentando um semelhante.

Desde sempre a violência está ali na esquina, e tantos concordam com o cientista vivido pelo ator Benedict Cumberbatch: sim, é bom, gostoso, prazeroso.

Se não para todos, para muitos, tantos…

O que mais explicaria a seguinte cena, que eu presenciei ontem de manhã na Praça da República, centro de São Paulo.

Esperando o sinal fechar para atravessar a rua, vejo a moça de seus 25/30 anos, cabelos longos, toda de preto, mochila às costas, aparentemente uma pessoa normal não estivesse falando alto e olhando repetidamente para trás enquanto caminhava rápido, como se fugisse de algo ou alguém.

O sinal fecha, os carros param, ela cruza a rua entre os veículos, apressada e arisca. Já na calçada, fala alto e gesticula. De repente dá um salto em direção a um dos carros parados e começa a agredir uma pessoa pela janela do auto simples, tipo popular.

Grita e dá socos e tapas e se afasta com um par de óculos nas mãos; atira-os no chão e vai embora pela praça, sempre rápido, de vez em quando olhando para trás, rindo, excitada (com prazer?).

Vou até o carro para ver o que tinha acontecido e vejo lá dentro uma senhorinha pequena, descabelada e aos prantos, completamente atordoada.

– O que aconteceu, dona

– Eu não sei!

– A senhora conhece aquela moça?

– Não!

– Por que ela te bateu?

– Eu não sei, eu não sei…

Abaixo para apanhar os óculos quebrados, entrego à mulher que treme e chora.

Os carros buzinam, as pessoas olham, a mulher não sabe o que fazer.

– Toma seus óculos, dona, liga o carro, se concentra. Vai pra casa, dona…

Ainda arrisco dizer a ela que aquela área é perigosa, que ela não devia andar de vidros abertos, e me afasto enquanto ela engata a marcha e se vai titubeando.

Até agora ela deve estar pensando: o que aconteceu, o que eu fiz, porque ela me bateu?

Ela te bateu porque foi bom pra ela, lembro do filme sobre o gênio incompreendido.

Por qual outro motivo alguém do nada agride um desconhecido frágil e se vai com um ar feliz?

A moça de preto poderia ser louca, fumadora de crack, estar surtada?

Não creio: acho que ela apenas estava se sentindo bem.

Talvez seja esta também a explicação para o fato de a violência e seus congêneres (o ódio, o preconceito, a intolerância, a agressividade, a grosseria) nunca “saírem de moda” e no presente momento estarem tão em voga, em alta, espalhados sobretudo virtualmente nas redes: por conta de divergências mínimas, as pessoas brigam, se agridem, se xingam se ofendem, se rejeitam e se apartam.

Talvez seja por isso mesmo, porque é bom para elas…

*

Acredito que o cúmulo, o suprassumo, o extremo absoluto da violência é a violência praticada contra si mesmo, impingir-se dor e sofrimento. E o extremo do extremo é causar a própria morte, suicidar-se.

Numa discussão sobre este tema, o site colaborativo The Might, já citado aqui anteriormente e no qual pessoas das mais diversas origens compartilham suas experiências para “enfrentar juntas a dor, a doença e os transtornos mentais”, publicou um trabalho visualmente lindo. Reuniu 35 pessoas que ou tentaram o suicídio ou perderam por este motivo um companheiro ou o pai, a mãe, um irmão, um amigo. E todos eles resolveram marcar este doloroso episódio de suas vidas fazendo uma tatuagem.

O material completo está em http://goo.gl/MMwXDY. E abaixo vai uma amostra desta estranha maneira de encarar a perda a dor:

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Cordial é o cacete!

Estudo comprova o que sentimos na pele: o brasileiro é um intolerante, perdeu a cordialidade, e sua artilharia da estupidez são as redes sociais

Em meio ao tiroteio de baixarias que rolou dois anos atrás, durante as eleições que reconduziram Dilma ao Planalto, tinha um povo bem assustado com o enlouquecido nível dos enfrentamentos, de lado a lado. Petistas e Tucanos, coxinhas e mortadelas perdiam a linha, botavam a mãe no meio e a culpa no outro.

A mim aquilo tudo, o exacerbamento e o ódio que transbordavam, nada mais era do que um reflexo muito bem acabado do nosso espírito (de porco) e dos nossos (tristes) dias.

Numa coluna publicada na Folha em 25/10/2014, em que por uma questão de bom tom solicitado pelo jornal o título era “Cordial é o C.!”, escrevi o seguinte: “Os xingamentos, a baixaria, a dissimulação, a intolerância que têm como epicentro as eleições e como cenário mídias, propaganda política e sobretudo redes sociais, nada mais são que a emulação da grosseria, da violência, do egoísmo, da incivilidade, da incordialidade, digamos assim, que vivenciamos todos os dias nos mais variados lugares, não importando nem um pouco quem vota em quem.”

Na ocasião eu atirei no que via e, hoje, percebo que acertei no que apenas intuía: o foco predominante, o protagonismo das redes sociais nesta avacalhação nacional, esta avacalhação em que falta respeito, tolerância, classe.

E constato isso por meio de um estudo a um só tempo estimulante e desanimador: estimulante porque consagra a plataforma digital Torabit como instrumento indispensável para se entender o vasto mundo das redes sociais hoje, e desanimador justamente por aquilo que os algoritmos da Torabit -empresa comandada por Stephanie Jorge e Caio Tulio Costa – revelam.

O estudo surge no contexto da iniciativa inovadora e corajosa da agência Nova /SB, do publicitário Bob Vieira da Costa, que se chama “Comunica que Muda”. O projeto (lembre-se, de uma agência de publicidade que tem clientes e que portanto precisa fazer dinheiro) põe em discussão temas espinhosos como maconha, mobilidade, suicídio, lixo e, entre outros, a intolerância.

Que foi exatamente o que a Torabit pesquisou no mundo virtual: intolerância, preconceito, ódio.

Em artigo publicado na Folha dias atrás Bob Costa revelou detalhes (assustadores) da coisa toda. Primeiro deu um panorama geral: “A internet vem ajudando a derrubar o mito de que nós brasileiros somos tolerantes às diferenças. Histórias que desnudam a intolerância entre nós surgem a cada dia. Para cada caso com pessoas conhecidas noticiado na mídia, há outros milhares nas redes sociais. Cabelo ruim, gordo, vagabundo, retardado mental, boiola, malcomida, golpista, velho, nega. Expressões como essas predominam nas nuvens de palavras encontradas em posts que revelam todo tipo de intransigência ao outro, em vários aspectos: aparência, classe social, deficiência, homofobia, misoginia, política, idade, raça, religião e xenofobia.”

Mais adiante forneceu dados de arrepiar: “…as redes sociais apenas amplificaram discursos existentes no nosso dia a dia. No fundo, as pessoas são as mesmas, nas ruas e nas redes. Vejamos: o Brasil lidera as estatísticas de mortes na comunidade LGBT (dado da Associação Internacional de Gays e Lésbicas); mata muito mais negros do que brancos (Mapa da Violência); aparece em quinto lugar em homicídios de mulheres (Mapa da Violência); registrou aumento de 633% nos casos de xenofobia (Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos); e 6,2% dos seus empregadores confessam não contratar pessoas obesas (site de recrutamento).”

E chega ao ponto que, para mim, é nevrálgico, qual seja a musculatura avassaladora da intolerância no ciberespaço, aferido pela Torabit: “De abril a junho, foram analisadas nada menos que 393.284 menções aos tipos de intolerância citados no início do texto. O percentual de abordagens negativas dos temas ficou acima de 84%. No caso do racismo, chegou a 97,6%.”

Em termos de intolerância geral, o Rio de Janeiro tem o maior número de citações (58.284), mas, proporcionalmente à população, o Distrito Federal é o campeão nacional da porradaria.

Mesmo diante de quadro tão desanimador, Bob Costa demonstra um otimismo no mínimo desafiador: “Suportar o outro é só o começo de uma evolução. Tolerar é manter uma relação positiva com pessoas completamente diferentes. É um processo de mão dupla, aceitar para ser aceito. Não é um caminho fácil. O primeiro passo, sem dúvida, é tornar o debate de interesse público, fazer explícitas as ofensas cotidianas.”

Ok, vamos ao debate, à denúncia, à exposição propositiva das mazelas.

Mas tenho sérias dúvidas sobre onde chegaremos e em que estado, do ponto de vista moral…

 

***

Aliás e a propósito, como bem lembrou o jornalista e escritor Pedro Doria em sua sempre bacana newsletter “Um Pouco de História”, o tal brasileiro cordial está fazendo 80 anos. Ou pelo menos o mito do brasileiro como homem essencialmente cordial surgido da leitura (para muitos equivocada) do livro “Raízes do Brasil”, de Sergio Buarque de Holanda, publicado em 1936.

Por que, se mito, o mito sobrevive tanto tempo – mesmo que esteja se deteriorando via ferramentas da contemporaneidade?

Para responder a esta questão Doria dá algumas ótimas pistas, mas talvez seja o caso mesmo de se (re) ler este livro, sempre alojado entre os primeiros em qualquer lista que se faça de obras que ajudam a entender um pouco mais esta bagunça chamada Brasil…

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Pela ordem, as citações:

Minha coluna da Folha

Torabit

Artigo do Bob Costa: 

Projeto Comunica que Muda

“Um Pouco de História”