Sensação de morte iminente

Mix illustration02-01Sou do tempo em que tomar calmante era uma vergonha, remédio de tarja preta era sinônimo de hospício, e os “loucos” da família eram isolados, reprimidos, escondidos, quando não enxovalhados. Psicótico e neurastênico eram palavrões, que nem sempre correspondiam à realidade da pessoa que era apenas diferente das demais. Hoje as coisas estão muito diferentes, e rótulos desabonadores como psicose maníaco-depressiva ou melancolia crônica, por exemplo, tornaram-se transtornos afetivos, são tratáveis e menos assustadores. Por isso pode-se falar disso tudo com certa tranquilidade, o preconceito é bem menor, daí minha insistência (primeiro nas colunas da Folha, agora aqui neste blog) em falar recorrentemente sobre tudo isso, incluindo-me entre os “transtornados” sem assustar ninguém e com a expectativa de jogar cada vez mais luz sobre estes temas tão contemporâneos. Se por um lado evoluímos nos conceitos relativos a razão e loucura, por outro temos visto avançarem as estatísticas: mais diagnósticos, mais gente envolvida, novos medicamentos, novas terapias. Dentre os motivos de preocupação, uma se destaca: o aumento dos transtornos de ansiedade, que no limite podem ocasionar a famigerada síndrome do pânico. Imobilizante, dolorida, traiçoeira e desagregadora, a ansiedade extrema tem uma definição que dá bem a medida dos estragos que causa. Trata-se da sensação da morte iminente. Hoje estive no William, meu massagista, para dar um jeito num músculo das costas, e ele já foi dizendo: tensão, muita tensão. – E ansiedade – disse eu -, estou numa fase bem ansiosa. Até tomei um remedinho… – Só você? A quantidade de gente que eu atendo que está com problemas de ansiedade é enorme. Eles vêm aqui para tentar relaxar com a massagem e acabam me contando: ansiedade, medo, síndrome de pânico… – Este número tem aumentado? – Muito! Vários pacientes. Outro dia um deles me contou que passou mal no carro na Marginal Tietê. Do nada, começou se sentir mal, a achar que ia acontecer alguma coisa grave, que ia desmaiar, que ia morrer. Largou o carro no acostamento, atravessou duas pistas a pé e pegou um táxi. Confessou que nunca mais passou pelo Marginal… Embora haja tratamentos específicos e bastante eficientes, a ansiedade aumenta, e não é de hoje. Nem é exclusividade de motoristas que passam pela Marginal ou de jornalistas que viraram blogueiros. A incidência é grande em todo o mundo e desconhece sexo, raça, credo. O portal colaborativo The Mighty, cujo lema é “Enfrentamos juntos deficiência, doença e transtornos mentais”, publicou dias atrás um texto excepcional, consolidado pela jovem Farah Musallam, no qual 24 leitores do site descrevem, anonimamente, como é conviver com a ansiedade, não aquela ansiedade ocasional que todos sentem de vez em quando, deflagrada por vicissitudes da vida moderna, mas a que ocorre quando o bicho pega de verdade e a vida parece ficar por um fio. Selecionei 13 relatos mais comoventes para dar uma ideia de como ficamos quando a ansiedade resolve quase ter vida própria:

  1. “A ansiedade me mantém acordado à noite, como um prisioneiro em minha casa. A ansiedade me faz sentir como um fracassado, tira toda a minha autoestima. Faz-me sentir desconfortável e nervoso e tem me tirado amigos, família, oportunidades, a minha vida.”
  1. “A ansiedade é como ir abrindo novas abas no computador muito rapidamente, uma depois da outra, e não ser capaz de fechá-las nem parar de abrir novas. Isso tudo dentro da sua cabeça. Isso acontece durante o trabalho, ao cuidar das crianças, na condução, respondendo a perguntas e durante um milhão de outras coisas que as pessoas fazem em um dia.”
  1. “A ansiedade é como uma adrenalina sem a montanha-russa real!. Coração dispara, as mãos suam, os joelhos fraquejam. Você tem todos os sintomas físicos de uma aventura com muita emoção, mas  não tem um evento real para justificar estes sintomas.”
  1. “É como se você estivesse prendendo a respiração sem perceber, ter que ficar lembrando constantemente que precisa respirar”.
  1. “A ansiedade leva você para um lugar fora do seu corpo, onde você não consegue distinguir a fantasia da realidade. É debilitante, assustador e angustiante.”
  1. “Imagine um monte de gente falando com você, em voz alta, tudo o que você não quer ouvir – é o que sinto na minha cabeça.”
  1. “A ansiedade é você preso ao lado de um motorista de carro de corrida, implorando para ser solto”.
  1. “É nunca ser capaz de parar de pensar demais, analisar demais, se preocupar demais. A ansiedade permite que seus pensamentos dominem a sua vida”.
  1. “A ansiedade é saber que, por mais que você planeje com antecedência, você ainda espera o pior acontecer. Mesmo se isso não acontecer, você se convence de que, na próxima vez, acontecerá. É um ciclo sem fim.”
  1. “Imagine estar no shopping com o seu filho de 3 anos de idade, você se vira e ele desaparece. Pense no nível de pânico que você iria experimentar. Alguns dias eu me sinto assim. Sem lógica nenhuma, a coisa acontece e você não pode desligá-la “.
  1. “É como andar através de um campo minado, um campo livre, mas cujo caminho muda constantemente, e você nunca sabe quando as minas irão explodir. Cada passo é incerto”.
  1. “Eu sinto como se estivesse preso numa correnteza e me afogando nas ondas. Você tem que manter o pé e nadar na diagonal para a costa. Você não pode chegar lá diretamente.”
  1. “É como uma experiência fora do corpo. Você está assistindo a si mesmo e não pode fazer nada para controlar.”

Deixo aqui o mesmo alerta que o pessoal do “The Mighty” fez a seus leitores: nem todo mundo experimenta ansiedade da mesma forma e na mesma intensidade, e os relatos acima representam experiências individuais. E que experiências…

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8 pensamentos em “Sensação de morte iminente”

  1. “É como uma experiência fora do corpo. Você está assistindo a si mesmo e não pode fazer nada para controlar.”
    Sem mais…
    Caver, seus textos são iluminadores!!!!
    Beijos

    1. A ideia, Camila, é justamente esta: compartilhar experiências para iluminar os caminhos, seja a lanterna de quem for…
      bj

  2. Esse sou eu. Rivotril (ja passei por todos os “benzos” mas depois de 11 de setembro….a coisa piorou, óbvio. Tem dias em que não consigo (literalmente) abrir a porta pra colocar o lixo fora.
    É grave.

    LOVE
    Gerald

    1. Querido Gerald, eu teimo em acreditar que o compartilhamento das emoções (arte em que vc é mestre!), o conhecimento da experiência alheia e a referência de outrem tornam a realidade da nossa mente no mínimo um pouco mais aceitável…

      Love

  3. Caro, se o Gerald Thomas indica eu vejo. Excelente o texto sobre a ansiedade. Sofro de ansiedade e outros transtornos já faz tempo e mesmo agora estando tudo controlado com medicamentos ainda assim tenho crises de ansiedade e entro em pânico muitas vezes sem motivo aparente. Parabéns pelo blog e conta com minha presença nele. Abraço.

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