O ódio não é burro, a intolerância não é cega

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Erramos, e erramos feio, ao dizer que o ódio é cego, que a intolerância é burra.

Todos aqueles que estão preocupados com a escalada fascista no país, os que se sentem cada vez mais amedrontados com a maneira que são ofendidos os gays, como se atacam as mulheres que fogem ao comportamento padrão; como agride-se, verbal e mesmo fisicamente, todos os democratas e os que defendem e/ou respeitam o direito do outro, qualquer e todo direito, todos estes devem ter bem claro o seguinte: o ódio ocorre dentro de uma evolução muito bem focada em seus objetivos e princípios, assim como a intolerância se desenvolve dentro de uma estratégia bastante inteligente e articulada.

Pode parecer burrice ser ogro, cegueira odiar. Mas, na perspectiva da tomada do poder e da ocupação do espaço na sociedade, não é.

Outro dia alguém disse que as mídias sociais organizaram a imbecilidade. O grande Umberto Eco, pouco antes de morrer disse algo parecido, que a internet deu voz ao beócio, ao energúmeno, a quem nunca seria notado ou ouvido, mas que hoje é não apenas ouvido como tem seguidores.

O que é isso senão o sucesso de uma estratégia de ocupação de espaço, de penetração na sociedade, de consolidação de posições – xenófobas, misóginas, racistas, mas posições políticas e sociais que não devem ser desprezadas, tampouco negligenciadas.

Bolsonaro não é apenas babaca, Feliciano não é só ridículo, os pastores radicais que pregam a discriminação não são apenas carolas inofensivos, assim como locutores, cantores e jornalistas que apontam o dedo na cara de quem não reza pela sua cartilha não são somente opiniões divergentes. Aqueles que se vestem de verde-amarelo, tiram fotos com policia e pedem a volta da ditadura não são apenas personagens de foto do jornal.

Quem acompanha a série “Games of Trones” sabe bem que a série é um desfilar sem fim de crueldades, assassinatos, parricídios, infanticídios e por aí vai. Mas todos eles, aqueles trogloditas infames, temem o “inverno”, um mal maior que se aproxima.

The winter is coming”, repetiram ao longo de cinco temporadas. Pois é, no final da sexta temporada, depois de uma das mais sangrentas e impressionantes batalhas de campo já filmadas, depois que a religiosidade autoritária e incômoda explodiu pelos ares e que os dragões voaram leves livres, soltos e felizes tostando gente aqui e ali, fica-se sabendo: o inverno chegou!

Mal comparando, quem acha que, assim como achavam lá atrás os judeus de Varsóvia, ou outro dia os gays da boate de Orlando ou ainda ontem os viajantes que foram explodidos no aeroporto de Istambul, que não há com que se preocupar, atenção, atenção: “the winter is coming”…

Para ilustrar esta percepção de que há coisas efetivamente fora do lugar e que é preciso, como na velha canção, estar atento e forte, mas além disso ativo e resoluto, reproduzo um discurso surpreendente de Lady Gaga, ela mesma, falando a lado do grande Dalai Lama.

Veja como a diva, ali num pretinho básico, deixa muito claro que não, o ódio não é burro, nem a intolerância cega, nesta ordem ou em qualquer outra (des) ordem:

https://www.facebook.com/rdtlg/videos/559401997580588/

Cidade higiênica, pessoas sujas  

 

Homem Carrinho

São Paulo é uma cidade suja.

Sempre foi.

Sempre tem cara de suja, cinza, poeira de asfalto misturado com borracha de pneu de automóvel, uma poeira fina que penetra nas frestas; limpa de manhã, de tarde já está sujo.

Anos atrás o tentou-se tornar a cidade mais limpa, a coisa certa da maneira errada. Como a municipalidade não conseguia por ordem nas publicidades, cartazes, outdoors, neons, etc., resolveu de uma maneira bem brazuca: proibiu tudo. Mas não criou programas eficientes para que os proprietários cuidassem de suas fachadas.

A cidade ficou limpa?

Não, ficou sem o multicolorido (em geral bem feio, mas nem sempre…) das publicidades e passou a ostentar fachadas horrendas antes dissimuladas, paredes deterioradas, muros encardidos, aberrações arquitetônicas.

Hoje há a predominância dos rabiscos insanos dos pichadores – os grafiteiros continuam “sob controle”…

Quanto mais tentam controlar São Paulo mais ela foge ao controle – basta lembrar que ela inunda porque foi construída sobre seus córregos e lagunas…

Exemplo recente desse controle desajeitado: os moradores de rua.

Como todo ano, a chegada do frio traz o assunto à baila, expõe aquela gente suja que a cidade tolera porque não sabe o que fazer com ela. No frio, os seres invisíveis passam a fazer parte da paisagem ainda e sempre desumanizados.

Não se trata de uma jabuticaba, ou seja, coisa que só tem no Brasil, longe disso.

Segundo dados da ONU, são 100 milhões de pessoas vivendo nas ruas em todo o mundo.

Mesmo nos países desenvolvidos, principalmente depois da crise econômica de 2008 e ainda mais com a recente crise dos refugiados.

Na Alemanha (80 milhões de habitantes) havia em 2012 280 mil pessoas sem ter onde morar. A Espanha (46,6 milhões de cidadãos, apenas o dobro da Grande São Paulo) tinha até pouco tempo 1,5 milhão de famílias em abrigos e 23 mil pessoas morando nas calçadas. E o minúsculo Portugal (10 milhões de patrícios), cerca de 4 mil moradores de rua só em Lisboa e no Porto.

E o grande ricaço do norte, os Estados Unidos? Tinha mais de 600 mil “homeless” em 2012.

Dados mais recentes: 57 mil pessoas vivendo nas ruas de Nova York, população de 8,5 milhões.

Aqui do lado é assim: Buenos Aires (Argentina) tem 15 mil pessoas morando na rua para uma população de 3 milhões, e em Santiago (Chile) há 5,5 mil para 5 milhões – Paraguai, Uruguai, Peru e Bolívia têm números conflitantes nesta área.

Bem, conflito é o que não falta quando se fala em moradores de rua.

Sobretudo quando se fala dos nossos “homeless”: cerca de 16 mil para uma população de 11,9 milhões de paulistanos.

Aumenta, diminui, mas fica por aí. Entra prefeito, sai prefeito – direita, esquerda, centro – e o problema persiste, as políticas públicas são inócuas, um põe a culpa no outro – Marta Suplicy desancou Fernando Haddad em recente artigo na Folha, como se ela tivesse feito algo de realmente diferente quando governou a cidade…

Trata-se de uma questão irresolvível?

Talvez.

Por isso mesmo, pela delicadeza do tema e pelo mínimo de respeito que se deve a pessoas penalizadas pelo destino, há que ter cuidado, tato e generosidade.

“Limpar” a rua em nome da preservação do espaço público é de uma burrice fenomenal.

Ao permitir que sua militarizada guarda municipal fizesse isso, recolhendo liminarmente colchões, molambos e demais pertences dos moradores de rua mesmo com a temperatura glacial do fim de outono, o atual prefeito quebrou a cara.

Expôs inabilidade e insensibilidade ao mesmo tempo; voltou atrás, mas o estrago já estava feito.

Estrago que certamente impacta na popularidade de Fernando Haddad, que já anda bem mal das pernas: 7% das intenções de voto para as eleições deste ano, com a liderança (26%) do indescritível Celso Russomano…

Agora, convenhamos: as acusações de incompetência do Haddad tem fortes componentes de hipocrisia, seja por parte dos que querem “salvar” o povo de rua, seja dos que querem exterminá-los para deixar as calçadas limpinhas.

Um exemplo desta hipocrisia: como o assunto está na mídia e nas redes sociais por causa do frio, quem só agora passou a enxergar como gente este povo “sujo e malcheiroso” resolveu abrir o coraçãozinho: esta semana houve tanta doação de cobertores que ninguém sabe o que fazer com tanto pano.

Tipo assim: aqueça um pobre neste inverno e durma com a consciência tranquila…

 

(A foto acima foi feita por mim nos Jardins, área nobre da cidade, e é icônica da situação de quem não tem um teto, seja no frio ou no calor…)

 

Depressão e ansiedade, modo de usar com os outros

Nuvem

Qualquer pessoa que teve um episódio de depressão / ansiedade ou que convive com estes transtornos sabe: uma das coisas mais difíceis na vida da pessoa deprimida e/ou ansiosa é a convivência. Sobretudo a convivência com quem não entende, não faz nem um esforço para entender ou simplesmente se recusa a entender porque fulano ou fulana está daquele jeito.

É duro ouvir de parentes, amigos, gente que nos ama e que amamos ou apenas colegas de trabalho coisas do tipo: como ficar triste dentro de casa num dia tão lindo! Você tem a vida ganha, está ansioso com quê? Faz o seguinte: vai para rua, divirta-se e encontre pessoas que a tristeza vai embora! Putz, você tem que parar de tomar estes remédios de tarja preta, tente se acalmar que você melhora?

Hã hã!

Para quem está do lado de fora das nossas cabeças quando elas ficam destrambelhadas, tudo parece estranho e fácil: estranho de entender, fácil de resolver.

Não é nem uma coisa nem outra, mas o “mundo” em geral não entende. Pior: cabe justamente ao deprimido, ao ansioso, ao bipolar e afins tentar fazer com que pelo menos o deixem em paz. O que obviamente é também muito difícil.

Por isso, quando encontramos alguém que realmente está aberto a entender, disposto a ajudar e com a generosidade e paciência necessárias, que alívio!

Porque é muito difícil se comunicar adequadamente quando se trata do que estamos sentindo, e quando o que estamos sentindo não está de acordo com os padrões de comportamento dos viventes em geral.

Por conta disso, a norte-americana Haley French, ela também portadora de ansiedade crônica, alinhavou alguns sentimentos, contextos e explicações que podem ajudar, com amor e tolerância, tanto quem está do lado de dentro quanto do lado dessas tais cabecinhas ensandecidas. Ei-los:

 

“Às vezes não consigo encontrar uma explicação para sentir o que sinto.

Há momentos em que a minha ansiedade e depressão agem e eu não sei porquê. Infelizmente a minha doença não veio com um manual de instruções.

Se você ficar perguntando o tempo todo se eu estou ok, eu posso acabar me sentindo pior ainda. O constante questionamento pode me fazer entrar em pânico por não saber se estou agindo certo ou errado.

Quando eu começo a entrar em um episódio depressivo ou minha ansiedade dispara, eu tento me isolar. Eu me escondo no quarto ou fico um tempão fora da casa para tentar ficar longe das pessoas. Ficar sozinha nestes momentos significa mais para mim do que você jamais poderia saber.

Alguns dias é realmente impossível para mim sair da cama. Esta é uma coisa particularmente difícil para algumas pessoas entenderem. Sempre que fico na cama evitando minhas responsabilidades, eu gostaria de ser produtiva, mas me sinto paralisada. Não estou sendo preguiçosa ou querendo procrastinar, apenas não consigo fazer nada naquele momento.

Se eu não quero falar com ninguém, não tome isso como algo pessoal. Se eu digo “não” ao seu convite para sair ou não respondo a sua mensagem, não é que eu não quero te ver ou falar com você, mas às vezes eu não me sinto bem para falar com ninguém. Eu só preciso de algum tempo para resolver o que está acontecendo dentro da minha cabeça. Ir ao cinema ou trocar mensagens sobre o mais recente episódio de “The Game of Trones” me faz sentir como alguém que nunca vai conseguir sair de seu próprio cérebro.

Eu ainda me importo com você, provavelmente mais do que eu me importo comigo mesma. Quando eu realmente começar a te evitar, seja pelo tempo que for, não é porque você fez algo de errado. Eu me sinto como se você estivesse melhor sem mim, eu começo a pensar que sua vida será mais feliz sem que eu esteja nela.

Há dias em que me sinto completamente insensível às minhas próprias emoções. Se eu pareço um zumbi, é provavelmente isso o que eu sinto. Às vezes todas as minhas emoções parecem distantes para mim. Eu sei o que eu deveria estar sentindo, mas eu não consigo entender o sentimento em si. Como eu sei que você não vai entender isso, eu aprendi a agir como se eu estivesse sentindo a emoção que você espera de mim.

Há dias em que me enfrento muitas emoções ao mesmo tempo. Oposto ao não sentir nada, às vezes eu me sinto totalmente demais. Isto pode se manifestar de várias maneiras, posso estar triste, animada, irritada, esperançosa, desesperada, amor e ódio ao mesmo tempo. Então, se eu parecer que eu estou pulando de uma emoção para outra de forma extremamente rápida é porque eu estou tentando, sem conseguir, segurar uma emoção de cada vez.

Eu estou realmente tentando me sentir melhor. Eu não gosto de me sentir assim e eu nunca iria optar por ter uma doença mental. Mesmo que nem sempre indique isso, tudo o que faço é uma tentativa de me sentir melhor. Mesmo que seja algo que parece autodestrutivo, no momento eu sinto que isso vai me fazer sentir melhor.

Eu realmente agradeço tudo que você faz para mim. Eu sei que cuidar de alguém com uma doença mental é difícil, que tirar alguém de um episódio de depressão ou ansiedade é muito desgastante. Eu nunca vou ser capaz de expressar o quanto seu apoio significa para mim, seu apoio é o que faz meu problema suportável, e eu não posso expressar o quanto eu te amo por isso.”

 

 

 

 

A ditadura bate à sua porta

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Na semana passada foi criado um grupo no Facebook, que responde pelo nome de #eumelembro, que deveria ser visitado por todos. É um tapa na cara.

Deveria ser visto sobretudo por aqueles que estão preocupados com a crescente onda de conservadorismo que assola o país, pelo recrudescimento das atitudes fascistas por parte de diversas personalidades públicas e pelo assustador apoio que atitudes desta natureza tem encontrado na sociedade, inclusive por parte de gente digamos assim “do bem”.

Bastaram poucos dias para que a iniciativa da jornalista Fernanda Danelon reunisse dezenas de depoimentos de pessoas que viveram, assistiram ou apenas conhecem histórias da repressão truculenta perpetrada pela ditadura brasileira (oficialmente, de 1964 a 1985). Em geral são histórias familiares, que pouco ou nada têm a ver com as alegações utilizadas pelos militares para prender, torturar, matar: são subversivos, terroristas!

Não, longe disso, a maioria das personagens dos depoimentos ali postados, inclusive por gente que sofreu a tortura na própria pele, é composta de pessoas comuns, que apenas discordavam, que tinha opinião divergente, eram a favor da democracia, defendiam a liberdade de pensamento.

Mas não podia, era obrigatório aderir ao “Brasil Grande”, ao “País que vai pra frente” e coisas do gênero.

Esta iniciativa na internet presta um inestimável serviço para nossa história. Sempre digo que é preciso lembrar para não esquecer. Não esquecer o absurdo de não poder dizer que se é contra, não poder ler ou possuir o livro que você quiser, assistir ao filme que mais lhe aprouver, reunir-se para falar de política, candidatar-se, opor-se. Ah, mas houve exageros e luta armada. Sim, houve quem ousasse enfrentar todo o aparato bélico utilizado pelo Estado para aniquilar seus “inimigos”. Advinha quem venceu?

Por isso, mais do que nunca, é preciso conhecer a história dos derrotados para entender o absurdo da repressão e da truculência, sua covardia. Mesmo que atraindo a ira dos que odeiam a liberdade e a divergência.

É preciso, enfim, fortalecer esta nossa incipiente democracia, antes e agora ameaçada.

No momento achincalhada por abjetos com Bolsonaro e sua homofobia, seu racismo e sua defesa ostensiva da tortura como instrumento de conquista e/ou manutenção do poder.

Cena filme Batismo de Sangue
Cena de pau-de-arara do filme “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton

Para estas pessoas, pau-de-arara, choque elétrico nas genitais, afogamentos e assassinatos são justificáveis para conter um tal perigo comunista que nem existe mais.

O mais assustador é o alcance dessas ideias medievais propagadas por Bolsonaro: sua fanpage no Facebook tem mais de 3 milhões de seguidores, ou seja, milhões de pessoas que concordam que gays devem ser combatidos, negros enquadrados, mulheres intimidadas e inimigos, torturados. Mais absurdo ainda é que há grupos de ativistas gays de direita que propagam as ideias de Bolsonaro – entre elas a de a “doença” gay se cura na porrada. Pode? Pode sim, e tem mais.

E para fechar com “chave de ouro” este rol de insanidades, o agente da ditadura e torturador assumido coronel Brilhante Ustra foi-se recentemente, mas deixou uma biografia em que “justifica” seus atos hediondos. Pois bem, o livro encontra-se esgotado e com fila de espera para adquiri-lo.

Diante deste horror que se propaga, é preciso, repito, lembrar para não esquecer.

As histórias do #eumelembro cumprem bem este papel.

A vida por um fio

Homem por um fio

Andar pelas ruas de São Paulo é uma aventura, nem sempre agradável.

Para quem é de fora ou para quem não sabe, São Paulo tem, a rigor, três centros.

O “centro velho” é o centro histórico, donde se encontra a Catedral da Sé, marco zero da cidade, pertinho do Pátio do Colégio, onde os jesuítas começaram a ocupar o lugar dos índios e ergueram uma parede que está lá até hoje.

O “centro novo” não é nada novo, desenvolveu-se com a instalação do viaduto do Chá, a construção do Teatro Municipal e a urbanização da Praça da República – uma ex praça de touros -, cujo desenho e paisagismo poderia ser uma coisa linda, mas não é, posto que está desde sempre mal cuidada e suja.

E tem o chamado “centro financeiro” da cidade, que nada mais é que a avenida Paulista.

A geografia do miolo principal da cidade de São Paulo é na verdade muito simples, delimitado por dois rios: Tietê ao norte, de onde se chega rapidamente aos centros velho e novo, o espigão da Paulista lá alto de uma coluna cortando a urbe de leste a oeste, e os Jardins descendo na direção sul sudoeste, até chegar ao rio Pinheiros – os pontos cardeais não são muito precisos, mas é por aí.

Agora, a geografia humana da cidade de São Paulo é muito, muito complexa.

Vai dar uma voltinha pelos três “centros” que isto fica rapidamente evidente, na cara.

Ontem fiz isso, por motivos diversos andei a pé e de metrô pelos centros e depois pela Paulista, voltando à região central, onde moro, muito perto do símbolo da excrescência urbana paulistana que é o Minhocão.

Seja em qual canto for, a cidade assusta.

Pelo número de pessoas circulando, pelo número excessivo de carros tentando circular, pelas calçadas esburacadas e lotadas, pelo transporte subterrâneo entupido de gente que também circula mal.

E pela pujança que se traduz em prédios gigantescos, comércio alucinadamente variado e em contrastes, gigantes, surpreendentes, invasivos contrastes.

Da imensa fila de pessoas diante da placa de “precisa-se de auxiliares” na República ao rio humano transbordante da ligação subterrânea entre as linhas verde e amarela do metrô; dos executivos desfilando seus ternos bem e mal cortados nas cercanias da Fiesp aos deserdados que fazem das calçadas da cidade sua própria casa, a vida pulsa, mas parece que está sempre por um fio.

Por um fio como o operário da minha foto aí em cima, solitário higienista de uma urbe encardida no seu cinza eterno.

Mas há um denominador comum a todos os centros e a todos os cantos, que é sintetizado nos baixos do Minhocão: os moradores de rua.

Estão por todo canto desde há muito, fazem parte da paisagem paulistana.

Mas nesta época do ano – o frio chegou a 13 graus esta semana – eles se tornam mais carentes, evidentes, notáveis em seu anonimato.

Seja se multiplicando nos cruzamentos e esquinas pedindo um trocado, seja se enrolando em cobertores imundos e papelões velhos nos cantos e desvãos, não menos sujos.

E o Minhocão, sempre ele, se converte, sobretudo nas noites geladas, na grande vitrine da desigualdade e do desterro.

Eu moro perto do Minhocão há 13 anos, mas circulo por suas redondezas há muito tempo, mais de 30 anos.

Neste período já “comandaram” esta cidade insana Reynaldo de Barros, Salin Curiati, Mario Covas, Jânio Quadros, Luiza Erundina, Paulo Maluf, Celso Pitta, Régis de Oliveira (apenas um mês no cargo), Marta Suplicy, José Serra, Gilberto Kassab e atualmente Fernando Haddad.

Como se vê, partidos, tendências políticas, estatura moral, visão de mundo bem diversas, divergentes ou não.

Mas nenhum deles conseguiu dar um jeito de tirar este número cada vez maior de pessoas – sim, são pessoas, não andrajos – do relento.

Uma remediada aqui, um improviso ali, mas resolver resolver mesmo…

Anos atrás, um amigo então ligado à Prefeitura me disse que há na cidade mais vagas em abrigos do que gente morando de fato na rua – boa parte daqueles que andam pelo centro moram longe e pessimamente, em barracos mal ajambrados nas franjas da cidade, preferem dormir na rua e mais perto de comida e algum dinheiro.

O problema, dizia meu amigo, é que você não pode obrigar os moradores de rua a irem para os abrigos, vão apenas se quiserem ir, e, segundo consta, não querem.

Conforme levantamento realizado no ano passado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – Fipe o número de pessoas em “situação de rua” chega a 16 mil. Em 2000 era metade disso. E claro que a população da cidade cresceu na mesma proporção, o que seria uma justificativa.

E justificativas há muitas (toda cidade do mundo tem gente morando na rua, é a crise, o desemprego blablablá), mas o que não há é solução, como se fosse assim mesmo e assim acaba ficando.

Qual a solução? Eu não sei, mas também não me candidato a prefeito nem sou nomeado secretário, que têm a obrigação de encarar este e tantos outros problemas da cidade.

Mas o fato é que este problema é desumano, vergonhoso e urgente, dói na vista e no coração.

Pior que isso só a maneira como tratamos nossas crianças e nossos idosos nesta São Paulo de Piratininga.

Mas esta é uma outra história que fica para uma outra vez…

Nosso atraso, nossas pequenas corrupções

Blue-City

Passei 10 dias num país civilizado. Muito civilizado.

Em duas cidades canadenses, Toronto e Winnipeg.

Uma, a maior metrópole do país, 2,8 milhões de habitantes, a outra uma cidade média do centro sul do país, afastada de tudo, Winnipeg.

Toronto é linda, arquitetura encantadora, um sistema de comunicação (à pé) subterrâneo (the Path, o Caminho) incrível, para dar conta do frio intenso (muito abaixo de zero) do inverno no país.

E é limpa, muito limpa, nem procurando você encontra lixo, seja papel jogado no chão, sejam sacos à espera de coleta. Encontra, sim, lixeiras para todo lado, sempre em dupla: lixo comum, lixo reciclável.

Tem a torre monumental, o aquário, o museu, vida noturna agitada, parques, bikes pra todo lado, bairros temáticos e muito mais, mas este não é um texto sobre turismo, sorry.

Winnipeg é uma cidade média, conhecida porque lá aconteceram os Jogos Panamericanos de 1999. E também porque tinha muito índio, muitos búfalos e enfrenta temperaturas extremas (40º negativos no inverno, a 40º positivos no auge do verão).

Fica numa região absurdamente plana, o horizonte some de vista sem que se veja uma colina, um morrinho sequer.

Está longe de ser uma metrópole, se Toronto equivale a São Paulo, Winnipeg é tipo Sorocaba, com seus cerca de 600 mil habitantes. É espalhada, longas distâncias, perimetrais, avenidas retas e compridas.

Não tem rede de metrô, e como tudo é longe (e muito quente ou muito frio), anda-se de carro quase o tempo todo.

Mas o trânsito, intenso nos horários de pico, é calmo, naturalmente organizado, não tem estresse, em uma semana ali eu ouvi o barulho de uma (apenas 1) buzina – aliás, também não ouvi buzinadas em Toronto.

É permitido dobrar à esquerda em Winnipeg, mesmo nas avenidas, e nas mais movimentadas formam-se filas naturalmente organizadas para isso. Ninguém sai da fila, ninguém dá o truque de ir pela direita e dobrar, para fechar um outro carro e fazer a manobra lá na frente; ninguém quer levar vantagem.

Nas ruas secundárias há placas de “Pare” em praticamente todas as esquinas, mesmo nos entroncamentos remotos. E as pessoas param completamente seus carros. Mesmo que seja de madrugada, mesmo que se esteja com pressa, mesmo que não haja nenhum veículo se aproximando, para-se totalmente o veículo, para então seguir. Quando há movimento, quem parou primeiro sai primeiro, depois o outro e assim por diante, e segue-se a ordem natural da coisas.

O Canadá criminaliza severamente armas, descriminaliza severamente uso de drogas leves, tem um jovem primeiro ministro cujo ministério foi dividido em duas partes iguais: uma de homens e outra de mulheres – de múltiplas origens étnicas.

Por quê?, perguntaram a ele quando assumiu no ano passado. “Porque estamos em 2015”, respondeu.

E todo mundo entendeu.

O Canadá tem problemas, sobretudo na região de Winnipeg (Manitoba): não sabe direito o que fazer com as centenas de descendentes dos nativos que foram dominados e massacrados pelo colonizador e que hoje vivem às custas do governo, marginalizados pela sociedade, desorientados entre suas tradições perdidas e o capitalismo moderno.

Moderno mas que mantém uma envergonhada sem-dependência econômica dos Estados Unidos, que extrai petróleo de maneira suja e muito perniciosa para o meio ambiente no centro norte do país, que é meio indefinido culturalmente por conta de uma parte do país ser anglo-saxônica e falar inglês, outra meio latina e falar francês, e as duas não se bicarem muito.

De volta ao Brasil, não resisti à tentação de comparar as duas realidades, por tudo incomparáveis.

Mas me deixei levar, fiz contas e constatei que Toronto foi fundada quase 250 anos depois de São Paulo (Winnipeg, 200 anos depois de Sorocaba; nada contra Sorocaba, é que conheço a cidade e trata-se aqui de um exemplo).

Além de contas, fiz várias perguntas ingênuas e idiotas: por que lá as pessoas são tão educadas e aqui não? Por que as coisas funcionam numa e não na outra cidade, porque 200 anos não foram suficientes para desenvolver civilidades equivalente?

Você sabe?

Nem eu…

As pessoas pensam diferente?

Bem, com certeza agem diferente.

Por que lá são ricas?

Uai, o Brasil tem a 9ª maior economia do mundo e o Canadá a 10ª…

Vamos pegar um, apenas um exemplo de diferença entre os dois: a maior discussão política do momento no Canadá é a intempestividade do premiê Justin Trudeau, 44 anos, que outro dia puxou pelo braço um parlamentar oposicionista. Foi um escândalo.

Aqui no Brasil?

Bem, não vou nem falar nada para não ser apedrejado.

Mas a palavra de ordem é a corrupção, certo?

Então vamos apenas nos referir a “pequenas” corrupções cotidianas, de quem:

Falsifica carteirinha de estudante.
Rouba sinal de TV a cabo.
Compra e vende produtos falsificados/contrabando.
Fura fila.
Estaciona em vaga de idoso ou deficiente.

Suborna polícia na estrada.

Cola na prova da faculdade.
Bate ponto pelo colega de trabalho.
Apresenta atestado médico falso.

Atravessa em sinal vermelho.

Para sobre a faixa de pedestre.

Molha a mão do funcionário público para resolver umas coisinhas.

E por aí vai…

Tempos atrás fiz lista semelhante na coluna que tinha na Folha, e as reações dos leitores foram sociologicamente muito interessantes.

Se todo mundo rouba, a começar pelos políticos, por que eu não posso?
Se o ingresso fosse barato ninguém falsificaria carteira de estudante.
Se governo é corrupto, então vou mais é sonegar imposto.
Se as estradas são ruins e entupidas e eu quero chegar logo, “acho válido” andar pelo acostamento.
Se as operadoras de TV são ricas e tratam mal os clientes, isso libera o “gatonet”.
Se patrão é patrão, tem mais é que ser enganado mesmo.

Se…

Bem, se o Brasil fosse o Canadá, mas não é…

Resta-nos, ao fim e ao cabo, o sentimento de tempo perdido, de chances desperdiçadas, de um futuro que nunca chega, de uma certa melancolia patriótica…

O HORROR, O HORROR

Trinta e três (33!) sujeitos seviciam uma jovem adolescente no Rio de Janeiro e colocam um vídeo com a vítima na internet, ostentada como troféu de caça, tal bestas-feras.

Um participante recorrente de filmes pornográfico e estuprador confesso (relatou em detalhes sua façanha em um programa de TV; foi muito aplaudido) faz propostas para a educação do país, contra a liberdade de gêneros e contra a discussão sobre política..

Não, não é um pesadelo.

Embora seja…

 

Tatuagem, arte ou obsessão?

O corpo como suporte da obra de arte, exercícios de sado-masoquismo ou uma obsessão incontrolável? O que leva tantas pessoas e há tanto tempo a usar o próprio corpo para expor desenhos, pinturas elaboradas, signos, símbolos ou cores que, em todos os casos, exigem um bocado de dor?

Uma exposição atualmente em cartaz no ROM – Royal Ontario Museum, em Toronto, no Canadá, talvez não responda a estas perguntas, mas dá boas pistas e um excelente panorama de como as tatuagens surgiram, se desenvolveram, evoluíram e como adquiriram tantos adeptos em todo o mundo.

Mesmo quem não entende do assunto e, como eu, não possui nenhuma tatuagem no corpo acaba se encantando com a mostra “Tattoos: Ritual, Identidade, Obsessão” e todos os exemplos ali representados. De verdadeiras obras de arte, como as esculturas recobertas de pele artificial tatuada, a bizarrices incríveis, como os aparelhos improvisados com canetas Bic ou os espinhos utilizados como agulhas em priscas eras.

Quem quiser saber mais detalhes da exposição pode clicar aqui .

E quem quiser curtir um pouco, veja as fotos abaixo, tiradas durante uma visita ao local durante minha estada no Canadá na semana passada. É pelo menos divertido…

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Por que é difícil ser bom?

 

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Você é uma pessoa boa? Você já tentou ser uma pessoa boa – consigo mesmo, com seus familiares, com seus amigos, os funcionários de seu prédio ou casa, colegas de trabalho, com desconhecidos – e encontrou uma tremenda dificuldade para alcançar seu objetivo?

Bem, pelo menos saiba que você na está sozinho, mesmo que sua decisão de ser bom tenha sido tomada por culpa, por causa de alguma perda que o despertou para a bondade, por inspiração divina, o que seja.

Ser bom hoje em dia é de fato muito difícil.

Um dos objetivos deste blog é, entre outros, vasculhar o mundo virtual em busca de vida inteligente. É por conta disso que estou sempre de olho no excelente site Nexo (www.nexojornal.com.br/), e foi por intermédio dele que cheguei ao britânico The School of Life, um portal devotado ao desenvolvimento da inteligência emocional por meio da cultura. Escarafunchando no site, dei com um escaninho dedicado a publicações (livros e artigos) e de apoio a autores independentes, The Book of Life, que abre uma porta generosa para o horizonte do autoconhecimento.

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E foi justamente num dos textos ali publicados que encontrei essa abordagem no mínimo exótica da bondade, algo cuja prática seria tão difícil como manter-se em forma ou ter uma vida saudável.

Primeiro porque a ideia de “ser uma pessoa boa”, na sociedade moderna, é frequentemente associada a conceitos em geral negativos, como: ser solene (arrogante?), piedoso (sente peninha, é?), sangue frio (para suportar os demais humanos?), tolo (por perder seu tempo com os outros?) ou até mesmo alguém que não “liga para sexo” (para ostentar pureza?).

O fato é que tornou-se mais fácil, mais aceito socialmente ser “mau”.

Você já percebeu, claro, que muitos valorizam quem quer levar vantagem em tudo, aquele que atropela quem estiver entre ele e seu objetivo, o não estar nem aí para o sofrimento alheio e tratar a ética e a justiça como conceitos abstratos/obsoletos esquecidos no banco da escola, certo?

Felizmente não é todo mundo que pensa dessa maneira, que são adeptos desses conceitos sacramentados pela hipercompetitividade e em linha com a tal da meritocracia e outras armadilhas do capitalismo; há sim um número cada vez mais expressivo de pessoas em busca de uma vida melhor por meio de sentimentos e ações que as faça crescer como indivíduos. Como a bondade.

Mas isso dá um trabalho!

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Porque para ser bom no sentido de buscar ser uma pessoa melhor exige, além de tudo, aprendizado – ah, que saudades de Jean-Jacques Rousseau, para quem o homem nasce essencialmente bom…

Mas o conceito de “homem bom” ou “pessoa boa” é tão amplo quanto contraditório. No Brasil colônia, por exemplo, serviu para identificar poderosos da época, brancos, ricos e religiosos, a serviço da coroa para perpetuar o poder imperial sobre os colonizados, subjulgando-os.

No catolicismo, o homem bom é o homem de Deus, e quantas atrocidades já foram cometidas em seu nome?

Isso sem falar no super-homem de Nietzsche, aquele ser superior, o modelo ideal, desenvolvido e forte, que se sobrepunha a toda a humanidade – mas isso já é outra história.

Para nossa história aqui, que trata do trabalho que dá tornar-se uma boa pessoa, reproduzo abaixo o decálogo elaborado pelo Book of Life com os predicados a serem perseguidos por aquela gente bacana que queira, de fato, tornar-se uma pessoa melhor.

 

Quem se habilita?

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Resiliência – Siga em frente mesmo quando as coisas parecerem sinistras. Aceite que os contratempos são normais e que a natureza humana é, no final das contas, rude. Não assuste os outros com seus medos.

Empatia – Tenha a capacidade de se conectar imaginativamente com o sofrimento e as experiências particulares de outras pessoas. Tenha coragem de se ver no outro e olhar para trás com honestidade.

Paciência – A gente perde a paciência porque gostaria que as coisas fossem perfeitas. Nós avançamos tanto em certas coisas (colocamos o homem na Lua!), mas ainda não temos habilidade de lidar com as coisas que insistem em dar errado – trânsito, governo, outras pessoas. Devemos ser mais realistas sobre como as coisas realmente acontecem.

Sacrifício – Nós temos dificuldade de identificar nossas próprias qualidades. Mas temos a habilidade miraculosa de, ocasionalmente, renunciar às nossas satisfações em nome de alguém ou alguma coisa. Nós não salvaremos o planeta se não dominarmos a arte do sacrifício.

Cortesia – Seja tolerante e tenha a capacidade de viver junto àqueles com os quais você nunca vai concordar, mas a quem não pode evitar.

Humor – Ver o lado divertido das coisas e de você mesmo não soa muito bem, mas isto é sabedoria, porque você consegue trafegar entre o que você quer que aconteça e o que a vida lhe dá, o que nós sonhamos ser e o que na verdade somos, o que esperamos das outras pessoas e o que na verdade elas são. Como a raiva, o humor nasce do desapontamento, mas é canalizado de forma positiva. Isso é uma das melhores coisas que se pode fazer com a nossa tristeza.

Auto-conhecimento – Conhecer a si mesmo é não culpar os outros pelos seus problemas. É saber distinguir o que está acontecendo dentro de você e o que na verdade pertence ao mundo.

Perdão – É preciso reconhecer que viver com os outros é impossível se você não conseguir desculpar seus erros.

Esperança – O mundo é hoje somente uma pálida sombra do que poderá ser um dia, estamos apenas no comecinho da história. Conforme você vai ficando velho, coisas que na adolescências eram interessantes e desafiadoras tornam-se desesperadoras. O pessimismo não é necessariamente profundo nem o otimismo, superficial.

Confiança – Grandes projetos podem morrer por razões que a gente não teve a coragem de enfrentar. Confidência não é arrogância, está baseada numa constante consciência de como a vida é curta e do pouco que se pode perder quando se arrisca muito.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mãe é mãe, mas nem todas são felizes

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Como já se falou muito, mãe é mãe, não é?

E como todo mundo também já sabe: 

Mãe diz que é pra gente se cuidar.
Mãe diz que a gente come pouco.
Mãe diz que a gente come demais.
Mãe briga que a gente dorme mal.
Mãe dorme mal.
Mãe é linda.
Mãe é carinhosa.
Mãe enche o saco.
Mãe é carente.
Mãe é exigente.
Mãe faz a gente sentir culpa.
Mãe sente culpa.
Mãe fica doente pela gente.
Mãe é capaz de matar ou morrer.
Mãe pode tudo.
Mãe não quer nada.
Mãe quer muito.
Mãe gosta de qualquer coisa.
Mãe não gosta de nada.
Mãe não reclama.
Mãe resmunga o tempo todo.
Tem mãe que é cega.
Mãe faz comidinha.
Mãe cozinha mal.
Mãe odeia cozinhar.
Mãe erra no sal.
Mãe não gosta de ouvir reclamação.
Mãe tem paciência de Jó.
Mãe perde a paciência.
Mãe bate.
Mas mãe apanha da vida o que for preciso para proteger a gente.
Mãe faz muita falta.
Mãe não deveria morrer.
Mãe é santa.
Mãe é bacana.
Mãe é chata.
Mãe é alegre.
Mãe é triste.
Mãe não desiste,
Mãe é mãe, só muda de endereço…

E é justamente o endereço da mãe um dos principais determinantes da sua felicidade.

Se ela morar nas periferias das grandes cidades brasileiras, por exemplo, terá uma chance enorme de se tornar uma pessoa infeliz, de sentir na pele aquela que talvez seja a pior dor que existe no mundo, que é a perda de um filho.

Pior: a dor de ter o filho assassinado.

Sabe por quê?

Porque no Brasil são assassinados por ano nada menos que 10.500 crianças e jovens.

Isso significa que diariamente 29 mães se debruçam sobre o corpo do filho baleado, esfaqueado, linchado…

Vinte e nove mães que provavelmente nunca mais serão felizes.

Para quem gosta de recordes, aí vai mais um: no quesito jovens assassinados, o Brasil é vice-campeão mundial, só perde pra Nigéria…

Portanto, milhares de mães não terão nada a comemorar no seu dia, nenhum presente, nenhum beijo, nenhuma lembrancinha.

Espero sinceramente que você, leitora, esteja fora destas estatísticas.

Para você, do fundo do coração eu desejo um feliz dia das mães.

Sensação de morte iminente

Mix illustration02-01Sou do tempo em que tomar calmante era uma vergonha, remédio de tarja preta era sinônimo de hospício, e os “loucos” da família eram isolados, reprimidos, escondidos, quando não enxovalhados. Psicótico e neurastênico eram palavrões, que nem sempre correspondiam à realidade da pessoa que era apenas diferente das demais. Hoje as coisas estão muito diferentes, e rótulos desabonadores como psicose maníaco-depressiva ou melancolia crônica, por exemplo, tornaram-se transtornos afetivos, são tratáveis e menos assustadores. Por isso pode-se falar disso tudo com certa tranquilidade, o preconceito é bem menor, daí minha insistência (primeiro nas colunas da Folha, agora aqui neste blog) em falar recorrentemente sobre tudo isso, incluindo-me entre os “transtornados” sem assustar ninguém e com a expectativa de jogar cada vez mais luz sobre estes temas tão contemporâneos. Se por um lado evoluímos nos conceitos relativos a razão e loucura, por outro temos visto avançarem as estatísticas: mais diagnósticos, mais gente envolvida, novos medicamentos, novas terapias. Dentre os motivos de preocupação, uma se destaca: o aumento dos transtornos de ansiedade, que no limite podem ocasionar a famigerada síndrome do pânico. Imobilizante, dolorida, traiçoeira e desagregadora, a ansiedade extrema tem uma definição que dá bem a medida dos estragos que causa. Trata-se da sensação da morte iminente. Hoje estive no William, meu massagista, para dar um jeito num músculo das costas, e ele já foi dizendo: tensão, muita tensão. – E ansiedade – disse eu -, estou numa fase bem ansiosa. Até tomei um remedinho… – Só você? A quantidade de gente que eu atendo que está com problemas de ansiedade é enorme. Eles vêm aqui para tentar relaxar com a massagem e acabam me contando: ansiedade, medo, síndrome de pânico… – Este número tem aumentado? – Muito! Vários pacientes. Outro dia um deles me contou que passou mal no carro na Marginal Tietê. Do nada, começou se sentir mal, a achar que ia acontecer alguma coisa grave, que ia desmaiar, que ia morrer. Largou o carro no acostamento, atravessou duas pistas a pé e pegou um táxi. Confessou que nunca mais passou pelo Marginal… Embora haja tratamentos específicos e bastante eficientes, a ansiedade aumenta, e não é de hoje. Nem é exclusividade de motoristas que passam pela Marginal ou de jornalistas que viraram blogueiros. A incidência é grande em todo o mundo e desconhece sexo, raça, credo. O portal colaborativo The Mighty, cujo lema é “Enfrentamos juntos deficiência, doença e transtornos mentais”, publicou dias atrás um texto excepcional, consolidado pela jovem Farah Musallam, no qual 24 leitores do site descrevem, anonimamente, como é conviver com a ansiedade, não aquela ansiedade ocasional que todos sentem de vez em quando, deflagrada por vicissitudes da vida moderna, mas a que ocorre quando o bicho pega de verdade e a vida parece ficar por um fio. Selecionei 13 relatos mais comoventes para dar uma ideia de como ficamos quando a ansiedade resolve quase ter vida própria:

  1. “A ansiedade me mantém acordado à noite, como um prisioneiro em minha casa. A ansiedade me faz sentir como um fracassado, tira toda a minha autoestima. Faz-me sentir desconfortável e nervoso e tem me tirado amigos, família, oportunidades, a minha vida.”
  1. “A ansiedade é como ir abrindo novas abas no computador muito rapidamente, uma depois da outra, e não ser capaz de fechá-las nem parar de abrir novas. Isso tudo dentro da sua cabeça. Isso acontece durante o trabalho, ao cuidar das crianças, na condução, respondendo a perguntas e durante um milhão de outras coisas que as pessoas fazem em um dia.”
  1. “A ansiedade é como uma adrenalina sem a montanha-russa real!. Coração dispara, as mãos suam, os joelhos fraquejam. Você tem todos os sintomas físicos de uma aventura com muita emoção, mas  não tem um evento real para justificar estes sintomas.”
  1. “É como se você estivesse prendendo a respiração sem perceber, ter que ficar lembrando constantemente que precisa respirar”.
  1. “A ansiedade leva você para um lugar fora do seu corpo, onde você não consegue distinguir a fantasia da realidade. É debilitante, assustador e angustiante.”
  1. “Imagine um monte de gente falando com você, em voz alta, tudo o que você não quer ouvir – é o que sinto na minha cabeça.”
  1. “A ansiedade é você preso ao lado de um motorista de carro de corrida, implorando para ser solto”.
  1. “É nunca ser capaz de parar de pensar demais, analisar demais, se preocupar demais. A ansiedade permite que seus pensamentos dominem a sua vida”.
  1. “A ansiedade é saber que, por mais que você planeje com antecedência, você ainda espera o pior acontecer. Mesmo se isso não acontecer, você se convence de que, na próxima vez, acontecerá. É um ciclo sem fim.”
  1. “Imagine estar no shopping com o seu filho de 3 anos de idade, você se vira e ele desaparece. Pense no nível de pânico que você iria experimentar. Alguns dias eu me sinto assim. Sem lógica nenhuma, a coisa acontece e você não pode desligá-la “.
  1. “É como andar através de um campo minado, um campo livre, mas cujo caminho muda constantemente, e você nunca sabe quando as minas irão explodir. Cada passo é incerto”.
  1. “Eu sinto como se estivesse preso numa correnteza e me afogando nas ondas. Você tem que manter o pé e nadar na diagonal para a costa. Você não pode chegar lá diretamente.”
  1. “É como uma experiência fora do corpo. Você está assistindo a si mesmo e não pode fazer nada para controlar.”

Deixo aqui o mesmo alerta que o pessoal do “The Mighty” fez a seus leitores: nem todo mundo experimenta ansiedade da mesma forma e na mesma intensidade, e os relatos acima representam experiências individuais. E que experiências…