Nosso atraso, nossas pequenas corrupções

Blue-City

Passei 10 dias num país civilizado. Muito civilizado.

Em duas cidades canadenses, Toronto e Winnipeg.

Uma, a maior metrópole do país, 2,8 milhões de habitantes, a outra uma cidade média do centro sul do país, afastada de tudo, Winnipeg.

Toronto é linda, arquitetura encantadora, um sistema de comunicação (à pé) subterrâneo (the Path, o Caminho) incrível, para dar conta do frio intenso (muito abaixo de zero) do inverno no país.

E é limpa, muito limpa, nem procurando você encontra lixo, seja papel jogado no chão, sejam sacos à espera de coleta. Encontra, sim, lixeiras para todo lado, sempre em dupla: lixo comum, lixo reciclável.

Tem a torre monumental, o aquário, o museu, vida noturna agitada, parques, bikes pra todo lado, bairros temáticos e muito mais, mas este não é um texto sobre turismo, sorry.

Winnipeg é uma cidade média, conhecida porque lá aconteceram os Jogos Panamericanos de 1999. E também porque tinha muito índio, muitos búfalos e enfrenta temperaturas extremas (40º negativos no inverno, a 40º positivos no auge do verão).

Fica numa região absurdamente plana, o horizonte some de vista sem que se veja uma colina, um morrinho sequer.

Está longe de ser uma metrópole, se Toronto equivale a São Paulo, Winnipeg é tipo Sorocaba, com seus cerca de 600 mil habitantes. É espalhada, longas distâncias, perimetrais, avenidas retas e compridas.

Não tem rede de metrô, e como tudo é longe (e muito quente ou muito frio), anda-se de carro quase o tempo todo.

Mas o trânsito, intenso nos horários de pico, é calmo, naturalmente organizado, não tem estresse, em uma semana ali eu ouvi o barulho de uma (apenas 1) buzina – aliás, também não ouvi buzinadas em Toronto.

É permitido dobrar à esquerda em Winnipeg, mesmo nas avenidas, e nas mais movimentadas formam-se filas naturalmente organizadas para isso. Ninguém sai da fila, ninguém dá o truque de ir pela direita e dobrar, para fechar um outro carro e fazer a manobra lá na frente; ninguém quer levar vantagem.

Nas ruas secundárias há placas de “Pare” em praticamente todas as esquinas, mesmo nos entroncamentos remotos. E as pessoas param completamente seus carros. Mesmo que seja de madrugada, mesmo que se esteja com pressa, mesmo que não haja nenhum veículo se aproximando, para-se totalmente o veículo, para então seguir. Quando há movimento, quem parou primeiro sai primeiro, depois o outro e assim por diante, e segue-se a ordem natural da coisas.

O Canadá criminaliza severamente armas, descriminaliza severamente uso de drogas leves, tem um jovem primeiro ministro cujo ministério foi dividido em duas partes iguais: uma de homens e outra de mulheres – de múltiplas origens étnicas.

Por quê?, perguntaram a ele quando assumiu no ano passado. “Porque estamos em 2015”, respondeu.

E todo mundo entendeu.

O Canadá tem problemas, sobretudo na região de Winnipeg (Manitoba): não sabe direito o que fazer com as centenas de descendentes dos nativos que foram dominados e massacrados pelo colonizador e que hoje vivem às custas do governo, marginalizados pela sociedade, desorientados entre suas tradições perdidas e o capitalismo moderno.

Moderno mas que mantém uma envergonhada sem-dependência econômica dos Estados Unidos, que extrai petróleo de maneira suja e muito perniciosa para o meio ambiente no centro norte do país, que é meio indefinido culturalmente por conta de uma parte do país ser anglo-saxônica e falar inglês, outra meio latina e falar francês, e as duas não se bicarem muito.

De volta ao Brasil, não resisti à tentação de comparar as duas realidades, por tudo incomparáveis.

Mas me deixei levar, fiz contas e constatei que Toronto foi fundada quase 250 anos depois de São Paulo (Winnipeg, 200 anos depois de Sorocaba; nada contra Sorocaba, é que conheço a cidade e trata-se aqui de um exemplo).

Além de contas, fiz várias perguntas ingênuas e idiotas: por que lá as pessoas são tão educadas e aqui não? Por que as coisas funcionam numa e não na outra cidade, porque 200 anos não foram suficientes para desenvolver civilidades equivalente?

Você sabe?

Nem eu…

As pessoas pensam diferente?

Bem, com certeza agem diferente.

Por que lá são ricas?

Uai, o Brasil tem a 9ª maior economia do mundo e o Canadá a 10ª…

Vamos pegar um, apenas um exemplo de diferença entre os dois: a maior discussão política do momento no Canadá é a intempestividade do premiê Justin Trudeau, 44 anos, que outro dia puxou pelo braço um parlamentar oposicionista. Foi um escândalo.

Aqui no Brasil?

Bem, não vou nem falar nada para não ser apedrejado.

Mas a palavra de ordem é a corrupção, certo?

Então vamos apenas nos referir a “pequenas” corrupções cotidianas, de quem:

Falsifica carteirinha de estudante.
Rouba sinal de TV a cabo.
Compra e vende produtos falsificados/contrabando.
Fura fila.
Estaciona em vaga de idoso ou deficiente.

Suborna polícia na estrada.

Cola na prova da faculdade.
Bate ponto pelo colega de trabalho.
Apresenta atestado médico falso.

Atravessa em sinal vermelho.

Para sobre a faixa de pedestre.

Molha a mão do funcionário público para resolver umas coisinhas.

E por aí vai…

Tempos atrás fiz lista semelhante na coluna que tinha na Folha, e as reações dos leitores foram sociologicamente muito interessantes.

Se todo mundo rouba, a começar pelos políticos, por que eu não posso?
Se o ingresso fosse barato ninguém falsificaria carteira de estudante.
Se governo é corrupto, então vou mais é sonegar imposto.
Se as estradas são ruins e entupidas e eu quero chegar logo, “acho válido” andar pelo acostamento.
Se as operadoras de TV são ricas e tratam mal os clientes, isso libera o “gatonet”.
Se patrão é patrão, tem mais é que ser enganado mesmo.

Se…

Bem, se o Brasil fosse o Canadá, mas não é…

Resta-nos, ao fim e ao cabo, o sentimento de tempo perdido, de chances desperdiçadas, de um futuro que nunca chega, de uma certa melancolia patriótica…

O HORROR, O HORROR

Trinta e três (33!) sujeitos seviciam uma jovem adolescente no Rio de Janeiro e colocam um vídeo com a vítima na internet, ostentada como troféu de caça, tal bestas-feras.

Um participante recorrente de filmes pornográfico e estuprador confesso (relatou em detalhes sua façanha em um programa de TV; foi muito aplaudido) faz propostas para a educação do país, contra a liberdade de gêneros e contra a discussão sobre política..

Não, não é um pesadelo.

Embora seja…

 

Comments

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1 pensamento em “Nosso atraso, nossas pequenas corrupções”

  1. IMPAGAVEL ESSA MATERIA, COLUNA, TEXTO.
    Eu AMO comparações, Caversan.
    Certa vez, também na Folha, ainda meio chocado em estar em Sampa,
    escrevi sobre os “fios expostos” e a confusão visual, o perigo daqueles postes,
    a merda que eram as calçadas brasileiras com aquelas pedras portuguesas todas
    fora do lugar, tudo um enorme buraco, aqueles vasos enormes pra evitar que carro…
    estacionasse….o desnível de tudo….Mas, CHOVEU carta de leitor:” se não gosta daqui, volte pra tua terra”, e assim por diante.
    AMO essas comparações e vivo delas. Entre NYC e Londres, Londres e Rio, Rio e Zagreb e Beijing e seja lá onde estou eu vejo o red thread entre a possível civilização e quando estamos por um fio – esse caso desse estupro, por exemplo.
    PARABENS QUERIDO
    LOVE
    G

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