Gordofobia, gordices, preconceito

GordinhosSer gordo é “ruim”, deixa você “mal”, não é “cool”.

Descobri isso da maneira mais estranha possível: emagrecendo.

Hoje estou 17 quilos mais magro do que estava no começo do ano, depois explico por qual razão.

Mas praticamente todo dia, ou ao menos quando encontro com gente que não me vê há algum tempo, é a mesma coisa: Nossa, como você está bem, perdeu a barriga! Poxa, emagreceu, hein, que bom! Uau, como você está elegante! Gato!

Ou seja, antes eu estava mal, não aparentava nada de bom, era barrigudo, deselegante e feio?

Parece que sim…

Eu já sabia disso, mas senti na pele, por vias transversas: a gordofobia é um fato.

Ou a pessoa é engraçada, simpática e amiga porque é gorda, ou é feia, deselegante e doente pelo mesmo motivo.

Gordices incomodam os outros, em geral muito mais do que aos próprios gordos. Embora estes devessem se incomodar mais do que o fazem, porque está bem comprovado que excesso de peso e barriga grande fazem mal para a saúde – coração, vísceras, músculos, sangue, articulações – e para a autoestima, este caso agravado por um fator cultural que no Brasil ultrapassa qualquer barreira de e respeito e boa educação: baleia, balão, rolha de poço, pelota, porquinho, panetone, esvazia-piscina e por aí vai.

Bem, existe hoje uma epidemia de obesidade no mundo, e o Brasil está incluído nela.

Há muitos fatores que determinam isso, mas existe um certo consenso em torno do seguinte: antes, as pessoas em geral comiam pouco (ou menos) porque não havia alimentos em abundância para todos. Até 100, 150 anos atrás era difícil obter alimentos, pobre não tinha acesso a não ser ao básico do básico do básico e olha lá. E os ricos ou os mais ou menos tinham acesso a produtos naturais que seriam transformados em comida – que podia ser ingerida em muita quantidade e também engordar.

Mas não havia, como hoje, a abundância de produtos industrializados acessíveis a quase todos em quase todo lugar. E em geral produtos de baixa qualidade do ponto de vista da saúde. Produtos que engordam.

Gôndolas de supermercados, máquinas automáticas nas estações do metrô, lojas de conveniência, padarias, lanchonetes, camelôs e/ou ambulantes – a porcariada é muita e disponível.

Um documentário da BBC (a melhor TV de não-ficção que existe) apontou para o x da questão: a bomba da obesidade é detonada pelos produtos de fácil acesso que trazem a explosiva mistura de açúcar com gordura.

Um e outro existem na natureza.

Os dois juntos, não; é fruto e obra da ação humana, que ainda conta, para turbinar esta fórmula maligna, com a ajuda da farinha refinada, da carne processada, de aromatizantes e acidulantes e um monte de outras coisas estranhas de nomes impronunciáveis.

Em muitos dos casos – e é aí que mora o perigo, o resultado é de-li-ci-o-so!

Mas está matando o homem.

Mulheres e crianças aí incluídas.

Reportagem publicada outro dia em O Globo, que replicava pesquisa da prestigiada revista médica The Lancet, trazia dois dados preocupantes, um dele novo e bem alarmante.

Primeiro: os pesquisadores chegaram à conclusão de que pessoas obesas têm sua expectativa de vida reduzida em cerca de 10 anos – o que o próprio censo comum já intuía que isso de alguma maneira.

Segundo: estar apenas acima do peso já reduz a vida da pessoa em um ano.

Isso sim é novidade, isso sim chama a atenção, porque se tinha como certo que uns quilinhos a mais não significavam nada.

Ok, um ano a menos de vida pra quem vai 85, 90 anos não é nada, certo?

Mais ou menos.

Não é “nada” quando se é jovem, mas à medida que se envelhece isso torna-se “tudo”.

E pode piorar muito à medida em que se vai envelhecendo e/ou engordando. Veja o que afirmou o coordenador da pesquisa, Emanuelle Di Angelantonio, que atua em Cambridge, no Reino Unido, à agência de notícias France Presse: pela primeira vez há um estudo “definitivo” demonstrando que sobrepeso e obesidade estão relacionados não apenas a qualidade de vida, mas também e de forma significativa ao risco de morte prematura.

Bem, se a gente pensar que a epidemia mundial de gordura atinge nada menos do que metade da população brasileira, pode-se dizer: estamos fritos – aliás, fritura contribui muito pra isso…

GordoGorda

Para encerrar, mais duas coisas:

1 – a questão do peso ideal, sobrepeso e obesidade é polêmica: quando se está num, quando atingiu-se o outro ou chegou-se ao terceiro? Tem muita gente que não concorda com o tal cálculo do Índice de Massa Corporal e sua tabela, que coteja sexo, peso e altura, mas é o que temos (para checar o seu IMC, clique aqui: http://migre.me/upsfx)

2 – Perdi 17 quilos em poucos meses, caí de 103 para 86, depois de uma dieta rigorosa e mudanças de hábitos que, confesso, ocorreram com certa facilidade, meio que naturalmente – perdi o gosto pelas gordices, como menos, me exercito mais, passei a maneirar o álcool e o açúcar e coisas assim. Fiz isso por três motivos: tive uma arritmia cardíaca (também causada por ansiedade), levei um tombo ridículo e me esborrachei no chão feito uma abóbora madura e pesada e estava me sentindo muito mal – para dormir, para levantar da cama, caminhar, namorar, socializar, viver. Isso sem falar, claro, da pressão alta e dos altos índices de colesterol, triglicérides, ácido úrico e glicose.

Se você está mal no IMC ou quer emagrecer por motivos semelhantes aos meus, recomendo muito, pois a vida muda mesmo.

Danem-se a gordofobia e o preconceito das pessoas: procure um médico bacana, mude hábitos, sinta-se melhor.

E viva mais.

Ou não: quem dera se o fim da vida dependesse unicamente daquilo a gente come…

Comments

comments

1 pensamento em “Gordofobia, gordices, preconceito”

  1. Adorei. Não me preocupava com o excesso de peso, até descobrir que tenho tenho colesterol alto e diabetes. Não adianta: o corpo cobra seu preço mais adiante… Emagreci 17 quilos também.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *