A ditadura bate à sua porta

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Na semana passada foi criado um grupo no Facebook, que responde pelo nome de #eumelembro, que deveria ser visitado por todos. É um tapa na cara.

Deveria ser visto sobretudo por aqueles que estão preocupados com a crescente onda de conservadorismo que assola o país, pelo recrudescimento das atitudes fascistas por parte de diversas personalidades públicas e pelo assustador apoio que atitudes desta natureza tem encontrado na sociedade, inclusive por parte de gente digamos assim “do bem”.

Bastaram poucos dias para que a iniciativa da jornalista Fernanda Danelon reunisse dezenas de depoimentos de pessoas que viveram, assistiram ou apenas conhecem histórias da repressão truculenta perpetrada pela ditadura brasileira (oficialmente, de 1964 a 1985). Em geral são histórias familiares, que pouco ou nada têm a ver com as alegações utilizadas pelos militares para prender, torturar, matar: são subversivos, terroristas!

Não, longe disso, a maioria das personagens dos depoimentos ali postados, inclusive por gente que sofreu a tortura na própria pele, é composta de pessoas comuns, que apenas discordavam, que tinha opinião divergente, eram a favor da democracia, defendiam a liberdade de pensamento.

Mas não podia, era obrigatório aderir ao “Brasil Grande”, ao “País que vai pra frente” e coisas do gênero.

Esta iniciativa na internet presta um inestimável serviço para nossa história. Sempre digo que é preciso lembrar para não esquecer. Não esquecer o absurdo de não poder dizer que se é contra, não poder ler ou possuir o livro que você quiser, assistir ao filme que mais lhe aprouver, reunir-se para falar de política, candidatar-se, opor-se. Ah, mas houve exageros e luta armada. Sim, houve quem ousasse enfrentar todo o aparato bélico utilizado pelo Estado para aniquilar seus “inimigos”. Advinha quem venceu?

Por isso, mais do que nunca, é preciso conhecer a história dos derrotados para entender o absurdo da repressão e da truculência, sua covardia. Mesmo que atraindo a ira dos que odeiam a liberdade e a divergência.

É preciso, enfim, fortalecer esta nossa incipiente democracia, antes e agora ameaçada.

No momento achincalhada por abjetos com Bolsonaro e sua homofobia, seu racismo e sua defesa ostensiva da tortura como instrumento de conquista e/ou manutenção do poder.

Cena filme Batismo de Sangue
Cena de pau-de-arara do filme “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton

Para estas pessoas, pau-de-arara, choque elétrico nas genitais, afogamentos e assassinatos são justificáveis para conter um tal perigo comunista que nem existe mais.

O mais assustador é o alcance dessas ideias medievais propagadas por Bolsonaro: sua fanpage no Facebook tem mais de 3 milhões de seguidores, ou seja, milhões de pessoas que concordam que gays devem ser combatidos, negros enquadrados, mulheres intimidadas e inimigos, torturados. Mais absurdo ainda é que há grupos de ativistas gays de direita que propagam as ideias de Bolsonaro – entre elas a de a “doença” gay se cura na porrada. Pode? Pode sim, e tem mais.

E para fechar com “chave de ouro” este rol de insanidades, o agente da ditadura e torturador assumido coronel Brilhante Ustra foi-se recentemente, mas deixou uma biografia em que “justifica” seus atos hediondos. Pois bem, o livro encontra-se esgotado e com fila de espera para adquiri-lo.

Diante deste horror que se propaga, é preciso, repito, lembrar para não esquecer.

As histórias do #eumelembro cumprem bem este papel.

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1 pensamento em “A ditadura bate à sua porta”

  1. Essa coisa de tortura (ou qualquer repressão) é foda.
    Aqui vai um trecho da transcrição do programa Roda Viva em que eu era o entrevistado (1988) e destaco a parte onde falo da minha participação na Amnesty International, London:

    Antônio Carlos Ferreira: Por falar nos governos anteriores, você falou também do The Living Theater e, evidentemente, a gente se lembra do que eles passaram quando estiveram aqui. Foram presos, teve mil problemas, tudo. E, ao mesmo tempo, eu me lembro de uma outra face da sua biografia, que eu não coloquei aqui, mas foi na primeira vez que, inclusive, eu o conheci. Eu conheci você a cerca de onze anos atrás, eu era diretor de um jornal e você surgiu lá como representante da Anistia Internacional [organização não governamental que atua na área de direitos humanos]. Você veio aqui, inclusive, fazer levantamentos sobre torturas e etc. Como é esse seu passado? Esse seu passado como membro da Anistia Internacional aqui no Brasil, em um país que, na época, tinha tortura, censura à imprensa, no nosso caso, no semanário que eu dirigia, era censura à imprensa.

    Gerald Thomas: Bom, na época, eu trabalhava na Anistia, mas na sede que é chamada de Secretariado Internacional, que é em Londres, não é? Eu estava um pouco livre da tortura. Vim aqui algumas vezes levantar dados, mas acho que até meio incógnito, na época. Eu não sei, por uma…

    Antônio Carlos Ferreira: É, tudo naquela época era meio incógnito.

    Gerald Thomas: Meio incógnito, é. Passava pelos Lusíadas, não é? Ou pelas receitas culinárias [refere-se às notícias de jornais durante o regime militar que, quando censuradas, davam lugar a receitas e trechos de obras como Os Lusíadas, por exemplo, com forma de protesto]. Eu me sentia dentro de um vatapá, às vezes. Era uma coisa engraçada. Eu estava fazendo teatro lá e estava pintando, e, um dia eu abro o jornal que eu lia, que era The Guardian, que é um jornal meio liberal na Inglaterra e vejo uma enorme reportagem sobre desaparecidos no Brasil. Eu já não estava em contato com o Brasil há muitos anos nessa época. E fiquei absolutamente assustado com aquilo, porque eu achava… Eu tinha noção de que estava acontecendo isso, mas o Chile era a grande coisa na época, não é? Setenta e cinco mil executados em um estádio de futebol. Pinochet, aquela ditadura horrível. Esse era o parâmetro que se tinha no mundo. Então, a América Latina estava mais ou menos coberta pelo… Pela preocupação da Europa e dos Estados Unidos em relação a essa vítima chamada Chile. Resolvi ligar para a Anistia Internacional e perguntar se o departamento que lidava com o Brasil estava munido das pessoas necessárias e disse, já no telefone, que falava perfeitamente bem o português, que era um pouco brasileiro e que podia colaborar. No dia seguinte, eu estava no telex e não saí de lá. Fiquei quatro anos dentro da Anistia Internacional. Foi um dos piores governos aqui, era um… Desaparecimento… diariamente […] Convergência Socialista [grupo de esquerda da época que, mais tarde, militou dentro do PT e, posteriormente, originou o Partido Socialista dos Trabalhadores Unidos (PSTU)], pessoas que […] enfim, grupos inteiros desapareciam e reapareciam. A sede do PCdoB [Partido Comunista do Brasil] foi invadida e pessoas como Pedro Pomar [(1913-1976) fundador do PCdoB e redator-chefe do jornal A Classe Operária. Foi executado pela repressão no dia 16 de dezembro de 1976], foram assassinadas. Elza Pomerati ou Monserati, eu não me lembro…

    Antônio Carlos Ferreira: Monnerat.

    Gerald Thomas: Monnerat [militante comunista e guerrilheira no Araguai]. Rholine Sonde Cavalcante em Itamaracá e Carlos Alberto… Olha, os nomes voltam de repente. E eu, eu senti…

    Antônio Carlos Ferreira: E você fazendo os relatórios.

    Gerald Thomas: É, entrando em contato com o Superior Tribunal Militar, almirante Hélio Leite, na época. Escrevendo por telex direto para ele e com todas as oitenta. Na época, eram oitenta e nove centrais da Anistia no mundo mobilizando pessoas para que mandassem telegramas pedindo a soltura urgente dessa pessoa. Uma coisa que se chamava Campaign for the Abolition of Torture (CAT) – Campanha pela Abolição da Tortura – que tinha que ser relâmpago. Você acaba não saindo da Anistia, vinte e quatro horas do seu dia são dedicadas àquilo. Eu percebi que era a única pessoa, então, que estava lidando com o Brasil efetivamente. E descobri que, como essa época era muito repressiva, existiam muito poucas… Existia muito pouca noção, por exemplo, de pessoas aqui em São Paulo, em relação ao que estava acontecendo em Ponta Porã, Mato Grosso e Ceará. E eu comecei a centralizar informações que, mais tarde, de uma forma muito legal, virou o Comitê Brasileiro da Anistia (CBA) – Ira Maia e Eli [Borges], Raimundo Moreira no Rio. E enfim… São Paulo também, com o Cardeal [Paulo Evaristo] Arns. Aqui em São Paulo, o jornal Movimento, enfim, tudo isso levou a um congresso de exilados e banidos brasileiros em Roma em 1979, o que, por acaso, casualmente, foi coincidir com a promulgação da [Lei da] Anistia em 1979. E meu trabalho acabou e eu voltei para o teatro.

    Antônio Carlos Ferreira: Nesse tempo todo, você ficou fora do teatro.

    Gerald Thomas: Não. Eu, na medida do possível, eu fazia teatro também. Mas, às vezes, eu ficava, literalmente, vinte e quatro horas dentro da Anistia Internacional porque, na medida em que ia saindo um telex, eu pelo rádio amador, recebia a notícia de que uma outra pessoa tinha sido presa ou espancada. Vladimir Herzog que morria, Manoel Fiel Filho [metalúrgico] que morria também. E…

    Carversan: mais uma vez, parabéns pelo post.

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