Cordial é o cacete!

Estudo comprova o que sentimos na pele: o brasileiro é um intolerante, perdeu a cordialidade, e sua artilharia da estupidez são as redes sociais

Em meio ao tiroteio de baixarias que rolou dois anos atrás, durante as eleições que reconduziram Dilma ao Planalto, tinha um povo bem assustado com o enlouquecido nível dos enfrentamentos, de lado a lado. Petistas e Tucanos, coxinhas e mortadelas perdiam a linha, botavam a mãe no meio e a culpa no outro.

A mim aquilo tudo, o exacerbamento e o ódio que transbordavam, nada mais era do que um reflexo muito bem acabado do nosso espírito (de porco) e dos nossos (tristes) dias.

Numa coluna publicada na Folha em 25/10/2014, em que por uma questão de bom tom solicitado pelo jornal o título era “Cordial é o C.!”, escrevi o seguinte: “Os xingamentos, a baixaria, a dissimulação, a intolerância que têm como epicentro as eleições e como cenário mídias, propaganda política e sobretudo redes sociais, nada mais são que a emulação da grosseria, da violência, do egoísmo, da incivilidade, da incordialidade, digamos assim, que vivenciamos todos os dias nos mais variados lugares, não importando nem um pouco quem vota em quem.”

Na ocasião eu atirei no que via e, hoje, percebo que acertei no que apenas intuía: o foco predominante, o protagonismo das redes sociais nesta avacalhação nacional, esta avacalhação em que falta respeito, tolerância, classe.

E constato isso por meio de um estudo a um só tempo estimulante e desanimador: estimulante porque consagra a plataforma digital Torabit como instrumento indispensável para se entender o vasto mundo das redes sociais hoje, e desanimador justamente por aquilo que os algoritmos da Torabit -empresa comandada por Stephanie Jorge e Caio Tulio Costa – revelam.

O estudo surge no contexto da iniciativa inovadora e corajosa da agência Nova /SB, do publicitário Bob Vieira da Costa, que se chama “Comunica que Muda”. O projeto (lembre-se, de uma agência de publicidade que tem clientes e que portanto precisa fazer dinheiro) põe em discussão temas espinhosos como maconha, mobilidade, suicídio, lixo e, entre outros, a intolerância.

Que foi exatamente o que a Torabit pesquisou no mundo virtual: intolerância, preconceito, ódio.

Em artigo publicado na Folha dias atrás Bob Costa revelou detalhes (assustadores) da coisa toda. Primeiro deu um panorama geral: “A internet vem ajudando a derrubar o mito de que nós brasileiros somos tolerantes às diferenças. Histórias que desnudam a intolerância entre nós surgem a cada dia. Para cada caso com pessoas conhecidas noticiado na mídia, há outros milhares nas redes sociais. Cabelo ruim, gordo, vagabundo, retardado mental, boiola, malcomida, golpista, velho, nega. Expressões como essas predominam nas nuvens de palavras encontradas em posts que revelam todo tipo de intransigência ao outro, em vários aspectos: aparência, classe social, deficiência, homofobia, misoginia, política, idade, raça, religião e xenofobia.”

Mais adiante forneceu dados de arrepiar: “…as redes sociais apenas amplificaram discursos existentes no nosso dia a dia. No fundo, as pessoas são as mesmas, nas ruas e nas redes. Vejamos: o Brasil lidera as estatísticas de mortes na comunidade LGBT (dado da Associação Internacional de Gays e Lésbicas); mata muito mais negros do que brancos (Mapa da Violência); aparece em quinto lugar em homicídios de mulheres (Mapa da Violência); registrou aumento de 633% nos casos de xenofobia (Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos); e 6,2% dos seus empregadores confessam não contratar pessoas obesas (site de recrutamento).”

E chega ao ponto que, para mim, é nevrálgico, qual seja a musculatura avassaladora da intolerância no ciberespaço, aferido pela Torabit: “De abril a junho, foram analisadas nada menos que 393.284 menções aos tipos de intolerância citados no início do texto. O percentual de abordagens negativas dos temas ficou acima de 84%. No caso do racismo, chegou a 97,6%.”

Em termos de intolerância geral, o Rio de Janeiro tem o maior número de citações (58.284), mas, proporcionalmente à população, o Distrito Federal é o campeão nacional da porradaria.

Mesmo diante de quadro tão desanimador, Bob Costa demonstra um otimismo no mínimo desafiador: “Suportar o outro é só o começo de uma evolução. Tolerar é manter uma relação positiva com pessoas completamente diferentes. É um processo de mão dupla, aceitar para ser aceito. Não é um caminho fácil. O primeiro passo, sem dúvida, é tornar o debate de interesse público, fazer explícitas as ofensas cotidianas.”

Ok, vamos ao debate, à denúncia, à exposição propositiva das mazelas.

Mas tenho sérias dúvidas sobre onde chegaremos e em que estado, do ponto de vista moral…

 

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Aliás e a propósito, como bem lembrou o jornalista e escritor Pedro Doria em sua sempre bacana newsletter “Um Pouco de História”, o tal brasileiro cordial está fazendo 80 anos. Ou pelo menos o mito do brasileiro como homem essencialmente cordial surgido da leitura (para muitos equivocada) do livro “Raízes do Brasil”, de Sergio Buarque de Holanda, publicado em 1936.

Por que, se mito, o mito sobrevive tanto tempo – mesmo que esteja se deteriorando via ferramentas da contemporaneidade?

Para responder a esta questão Doria dá algumas ótimas pistas, mas talvez seja o caso mesmo de se (re) ler este livro, sempre alojado entre os primeiros em qualquer lista que se faça de obras que ajudam a entender um pouco mais esta bagunça chamada Brasil…

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Pela ordem, as citações:

Minha coluna da Folha

Torabit

Artigo do Bob Costa: 

Projeto Comunica que Muda

“Um Pouco de História”

 

 

 

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