O suicídio está perto, muito perto

Uma pessoa se mata a cada hora no Brasil. Podem ser adultos ou jovens sem motivo aparente. Setembro é o mês da prevenção do suicídio

Setembro é o mês em que ocorre a campanha de prevenção ao suicídio, o Setembro Amarelo, que tem como data internacional o dia 10, este sábado.

Entidades ligadas à saúde mental de todo o mundo se mobilizam para alertar sobre este tema, que é desagradável, indigesto, causa medo e rejeição. Principalmente porque a grande maioria das pessoas pensa que se trata de um problema distante, “dos outros”.

Mas não é, ou talvez não seja: o risco de suicídio pode estar mais perto do que se imagina.

Não apenas porque os números a respeito são assustadores: segundo a Organização Mundial de Saúde, 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos no mundo. No Brasil, este número chega a 12 mil; ou seja, mais de 30 pessoas por dia tiram sua própria vida. Uma a cada hora…

E as estatísticas não computam aqueles que de fato tentaram se matar e, por um motivo ou por outro, não conseguiram. O que quer dizer que trata-se de um problemaço, que destrói uma infinidade de famílias.

A literatura médica dá conta de que os casos de suicídio, ou tentativa de, estão em sua maioria relacionados a transtornos mentais como depressão ou transtorno bipolar, o que pode levar a se pensar somente em adultos doentes.

Só que não.

Cresce e muito, aqui e lá fora, o número de casos de jovens que tentam se matar – e muitas vezes conseguem.

Em menos de um ano, por exemplo, eu soube de três casos bem próximos de adolescentes que tentaram dar cabo à própria vida.

Todos de famílias super ok, pais carinhosos e atenciosos, nenhum problema aparente, a não ser os do dia-a-dia.

Mas na cabeça destes jovens – de 13, 15 e 18 anos – os dramas eram muitos e, para chegar aonde eles chegaram, insuportáveis.

Felizmente nenhum dos três – saudáveis, bonitos, inteligentes – conseguiu seu intento, mas o estrago emocional na família e, novamente, na cabeça destas quase crianças estava feito.

Assim como em adultos a origem pode ser a depressão ou desequilíbrios emocionais de outra natureza, os mais jovens revelam solidão, rejeição ao próprio corpo, falta de atenção da família – que pode ser real ou imaginária – como a causa do desespero.

Neste último aspecto se encontra o “X” da questão: seja qual for o motivo, a imaginação juvenil é terreno fértil para fantasias fatalistas.

Por isso é importantíssimo que os mais próximos estejam muito atentos aos sinais que estes jovens aparentemente normais emitem.

Não é porque seu filho ou filha não bebe, não fuma ou não usa drogas – preocupações básicas nas quais os genitores sempre focam sua atenção – que algo não esteja fora do lugar para ele.

Daí que informação, diálogo e afeto tornam-se ferramentas essenciais nesta fase da vida em que tudo pode acontecer – inclusive o pior.

Durante este Setembro Amarelo há campanhas de esclarecimentos em curso, se você quiser se informar melhor sobre o tema duas dicas são os sites do CVV – Centro de Valorização da Vida (www.cvv.org.br) e o da Associação Brasileira de Psiquiatria (www.abp.org.br).

Violência, sua linda

Por que as pessoas são violentas, odeiam, agridem, ofendem? Por que assim elas se sentem bem, porque é bom para elas.

Em uma cena triste do filme “O Jogo da Imitação”, Alan Turing, o homem que praticamente inventou o computador e decifrou os códigos de guerra nazistas, mas mesmo assim foi perseguido até a morte em seu próprio país por ser homossexual, diz o seguinte à sua assistente: “Você sabe por que as pessoas gostam violência? Porque é bom.”

Depois de tomar muita bordoada a vida toda por ser genial, esquisito e “bicha”, ele aceitava aquela constatação como algo natural do ser humano, que sente-se bem causando o mal, impingindo a dor, violentando um semelhante.

Desde sempre a violência está ali na esquina, e tantos concordam com o cientista vivido pelo ator Benedict Cumberbatch: sim, é bom, gostoso, prazeroso.

Se não para todos, para muitos, tantos…

O que mais explicaria a seguinte cena, que eu presenciei ontem de manhã na Praça da República, centro de São Paulo.

Esperando o sinal fechar para atravessar a rua, vejo a moça de seus 25/30 anos, cabelos longos, toda de preto, mochila às costas, aparentemente uma pessoa normal não estivesse falando alto e olhando repetidamente para trás enquanto caminhava rápido, como se fugisse de algo ou alguém.

O sinal fecha, os carros param, ela cruza a rua entre os veículos, apressada e arisca. Já na calçada, fala alto e gesticula. De repente dá um salto em direção a um dos carros parados e começa a agredir uma pessoa pela janela do auto simples, tipo popular.

Grita e dá socos e tapas e se afasta com um par de óculos nas mãos; atira-os no chão e vai embora pela praça, sempre rápido, de vez em quando olhando para trás, rindo, excitada (com prazer?).

Vou até o carro para ver o que tinha acontecido e vejo lá dentro uma senhorinha pequena, descabelada e aos prantos, completamente atordoada.

– O que aconteceu, dona

– Eu não sei!

– A senhora conhece aquela moça?

– Não!

– Por que ela te bateu?

– Eu não sei, eu não sei…

Abaixo para apanhar os óculos quebrados, entrego à mulher que treme e chora.

Os carros buzinam, as pessoas olham, a mulher não sabe o que fazer.

– Toma seus óculos, dona, liga o carro, se concentra. Vai pra casa, dona…

Ainda arrisco dizer a ela que aquela área é perigosa, que ela não devia andar de vidros abertos, e me afasto enquanto ela engata a marcha e se vai titubeando.

Até agora ela deve estar pensando: o que aconteceu, o que eu fiz, porque ela me bateu?

Ela te bateu porque foi bom pra ela, lembro do filme sobre o gênio incompreendido.

Por qual outro motivo alguém do nada agride um desconhecido frágil e se vai com um ar feliz?

A moça de preto poderia ser louca, fumadora de crack, estar surtada?

Não creio: acho que ela apenas estava se sentindo bem.

Talvez seja esta também a explicação para o fato de a violência e seus congêneres (o ódio, o preconceito, a intolerância, a agressividade, a grosseria) nunca “saírem de moda” e no presente momento estarem tão em voga, em alta, espalhados sobretudo virtualmente nas redes: por conta de divergências mínimas, as pessoas brigam, se agridem, se xingam se ofendem, se rejeitam e se apartam.

Talvez seja por isso mesmo, porque é bom para elas…

*

Acredito que o cúmulo, o suprassumo, o extremo absoluto da violência é a violência praticada contra si mesmo, impingir-se dor e sofrimento. E o extremo do extremo é causar a própria morte, suicidar-se.

Numa discussão sobre este tema, o site colaborativo The Might, já citado aqui anteriormente e no qual pessoas das mais diversas origens compartilham suas experiências para “enfrentar juntas a dor, a doença e os transtornos mentais”, publicou um trabalho visualmente lindo. Reuniu 35 pessoas que ou tentaram o suicídio ou perderam por este motivo um companheiro ou o pai, a mãe, um irmão, um amigo. E todos eles resolveram marcar este doloroso episódio de suas vidas fazendo uma tatuagem.

O material completo está em http://goo.gl/MMwXDY. E abaixo vai uma amostra desta estranha maneira de encarar a perda a dor:

14039981_1441478612534193_8948702339227985014_n-750x560

14045623_10153873016538067_4936343087503011992_n-563x750  14067496_10210904647598688_6080120142957151505_n-750x750

14068161_1568885473418372_8867538034533576764_n-750x499

14054203_1536131849745739_6705189177603184571_n 14079989_10207288963323165_8423431860848024477_n

14089045_10201988344627942_8403246032841048674_n-563x750

14089069_10208534027285704_557298769191762584_n-750x563

14064073_10154372711237954_2101674220968098398_n

14102197_10206962279395725_2362219679144847878_n-413x750

 

Paulistanos de quinta

Favelinhas proliferam em São Paulo, gente desvalida se espalha ainda mais pelas calçadas e marquises. E todos esperam que o poder público assuma uma responsabilidade que é de todos nós

São Paulo tem ganhado ultimamente um monte de favelinhas.

No auge do frio, a Prefeitura deu de arrancar na marra as tralhas dos moradores de rua, inclusive cobertores, mesmo com a temperatura em um dígito.

Morreu gente, outros quase, protestos nas redes sociais, desumanidade.

Pararam de perseguir os sem-teto por um tempo.

Resultado: eles se multiplicaram e se espalharam, sobretudo na região central da cidade. Os que estavam escondidos saíram de suas tocas imundas e os que viviam nas rebarbas da cidade foram para as regiões mais centrais em busca de um pouco menos de sujeira, mais comida, mais vida, talvez.

Cobertores amarrados na grades, barraquinhas de plástico, latas, comida velha, bebida ruim, “gente estranha fazendo coisas esquisitas”.

Os sem teto sempre estiveram por aí, nenhuma administração anterior nem a atual conseguiu dar conta do problema, tampouco trata-se de exclusividade paulistana, brasileira.

Mas o que chama a atenção é justamente isso: nunca houve uma política efetiva, consistente e contínua que de fato conduzisse o problema encarasse-o de frente e mantivesse programas permanentes de atenção verdadeira a esta gente – é gente, viu?

Arrancar tralhas e depois abandonar, voltar a arrancar (como está acontecendo de novo), criar e manter abrigos para onde estes desvalidos não querem ir e/ou fazer de conta que eles não existem.

Isso não é política pública.

O que fazer?

A complexidade do problema exige ação conjunta e conjugada, parcerias público-privadas, decisão de dar uma vida decente para quem nada tem e vive do outro lado da dignidade.

Não adianta agora, em meio ao calor da campanha política que se inicia, vir com conversa de zelador, higienista, “eu faço e aconteço”.

Vamos ver, vamos cobrar.

Mas que fique claro que não é um caso apenas de política e sim de cidadania, diz respeito a toda a população.

Claro, o poder público deve construir e liderar uma nova ordem.

Não para deixar as ruas de São Paulo mais “limpinhas”. Mas para dar dignidade a estes cidadãos de quinta categoria, que já não eram poucos, hoje são muito mais, e estão pelas ruas e calçadas exibindo nosso fracasso – sim, não adianta apenas tapar o nariz e virar a cara.

 

Eles também são desta cidade

Esta cidade também é deles.

Carta ao pai distante

No Dia dos Pais, rememoro aqui a cartinha que escrevi em 2006 para o seu Hermínio, que já tinha partido havia 10 anos

Querido pai,

Pensei muito antes de decidir escrever esta cartinha, para a qual busquei inspiração em uma que fiz mais de 40 anos atrás, sob os cuidados da querida professora Benedita Célia, lá do grupo escolar da Vila Esperança.

Lembrei-me de que, naquela ocasião, tive de ler a carta, porque seu analfabetismo impedia que pudesse fazê-lo sozinho.

Mas hoje escrevo diretamente para você, porque tenho certeza de que, no lugar onde se encontra já lá se vão quase 10 anos, todos sabem ler, escrever, cantar e dançar e também podem ser chamados de você, não mais de senhor, como eu fiz da primeira à última vez, quando falamos na véspera de sua morte.

Bem, mas agora você está longe e ao mesmo tempo aqui pertinho, e minha carta nos aproxima ainda mais, porque Dia dos Pais é para isso mesmo, apesar da gastança inútil toda –na minha primeira infância, eu sempre te dava de presente apenas um frasco de loção após barba, e você adorava…

Referi-me logo acima ao fato de todos dançarem aí no céu, então você deve estar se divertindo, né, seu pé-de-valsa?!

Lembro-me tão bem dos bailinhos na varanda de casa, nos quais você saia rodopiando com minhas irmãs, que depois acabaram me ensinando a dançar, bolero, samba e quetais, o que sei até hoje.

Seus mais de cem quilos desapareciam como que por encanto quando o Lucho Gatica mandava bala no “Besame Mucho”, e lá ia você todo pimpão.

Claro que nunca aprendi a rodopiar como você, mas sabe que eu herdei a tal “cara de bravo” que você tinha? Até que é uma boa, né, porque, enquanto todos pensam que estamos a ponto de sair no braço, na verdade, por trás da carranca, a gente está se divertindo. Você era um tremendo gozador, que eu sei. E adorava contar umas mentirinhas… Mas tudo bem, porque seu coração era enorme, sua capacidade de trabalho, inesgotável e sua mania de ser “viva e deixe viver” não tinha igual.

Por isso você era um cara muito querido por todos no bairro.

Toda tarde, quando você tomava banho e ficava fumando no portão, não tinha um que passasse na rua e não o cumprimentasse, o que me deixava muito orgulhoso.

Claro, você tinha seus defeitos, e minha mãe não deixava barato. Como o fato de nunca ter conseguido aprender a ler e escrever corretamente. Mas o que minha mãe não levava em conta é que, mesmo assim, você era capaz, por exemplo, de montar e desmontar uma máquina gigantesca como um tear industrial ou uma empacotadora de biscoitos, acompanhando diagramas inextrincáveis e ainda se comunicando sabe-se lá como com engenheiros alemães!

E minha mãe também implicava contigo, dizendo que você não era um bom comerciante (ela era ótima, lembra?). Ora, eu também sempre fui péssimo para vender qualquer coisa, e acabei sobrevivendo, como você sobreviveu, criou três filhos e construiu, no muque, três casas, do alicerce ao telhado, ao encanamento (aí você era bamba!) e até mesmo à instalação elétrica.

Essa eu nunca vou esquecer: quando mexia com eletricidade, você sempre me chamava para “ajudar” e, segurando no fio descascado, relava a mão em mim só para rir do pulo que eu dava com o choquinho, que você mesmo nem sentia.

Pai, você era um camarada (adorava esta palavra…) impressionantemente especial na sua simplicidade e humildade.

Lembro-me perfeitamente, pouco antes de sua morte, naquele mesmo portão, mas já sem o cigarro, porque o primeiro infarto já o havia atingido, quando lhe perguntei se você tinha medo de morrer, e você disse que não, de jeito nenhum, com aquele seu sorriso calmo e simpático nos lábios.

Claro que não, você não tinha medo de nada! Pena que tenha sofrido tanto com o segundo infarto…

Bem, está difícil de continuar escrevendo, porque as lágrimas teimam em fugir ao controle, mas só queria dizer mais uma coisa: obrigado.

Obrigado por ter sido quem foi, mesmo sem nunca ter lido nada do que escrevi _mas eu fui virar justamente jornalista, escritor, caramba!

Obrigado pela noção de honestidade, trabalho, generosidade e correção que você praticou e me ensinou.

Obrigado por todas as vezes que me levou nas costas nadando suavemente, pelos lambaris que pescamos juntos, pelas telhas que colocamos no telhado da casa da praia e pelo amor que você sempre fez questão que demonstrar por mim e por minhas irmãs queridas.

São esses ensinamentos e esses sentimentos que, para mim, fizeram de você um pai especial.

Aquele pai que eu faço questão de recordar aqui e agora para homenagear todos os bons pais que porventura lerem essa cartinha, neste Dia dos Pais.

 

A rede que nos protege

A zona de conforto que se forma em torno dos pequenos negócios locais aproxima as pessoas, promove afetos e torna a vida mais saudável

Morei na Itália quase um ano, final dos 1990, período sabático, estudar italiano e aprender culinária e história da arte –aprendi pouco de tudo.

Em Firenze (ou Florença), morava longe do centro turístico, via San Nicolò, do outro lado do rio Arno, num estúdio reformado no último pavimento de um edifício de três andares construído em 1420 – 80 anos antes do Brasil ser descoberto.

No térreo do meu prédio havia um misto de quitanda com mercearia.

Tinha sido de um casal que envelhecera e estava então passando o negócio para a filha e o genro. Todas as manhãs, a moça abria a pequena porta para receber as mercadorias, fornecidas também por pequenos comerciantes dos arredores – verduras e legumes frescos, ovos, alguma carne, embutidos, leite, macarrão, pão, vinho e alguns doces.

Tudo vinha em pequenas quantidades, porque eram coisas para serem vendidas naquele mesmo dia. Não havia estoque, não precisava disso: os compradores eram moradores do bairro – inclusive eu -, que adquiriam apenas o que iriam consumir naquele dia. No dia seguinte haveria disponíveis novamente produtos frescos, pra que guardar?

A freguesia era local, fiel e barulhenta. Não apenas comprava, mas discutia política, economia, futebol, a vida dos outros, chamava-se pelo nome (o da moça era Carmela, o do pai, sempre sentado emburrado num banquinho à entrada do estabelecimento, nunca ousei perguntar; no máximo arriscava um buon giorno…).

O forte do movimento era mesmo pouco antes do almoço, quando a lojinha lotava e a mercadoria ia embora. Depois do meio dia, a porta fechava, Carmela ia cuidar, também ela, do almoço da família, depois vinha a siesta, para tudo recomeçar por volta das 5 da tarde, com o movimento em direção ao jantar.

Com o tempo e com a frequência que mantive percebi que aquilo não era apenas um negócio, mas um estilo de vida.

Como aquele, existiam dezenas de comércios familiares nos bairros todos, em torno dos quais formava-se uma rede de relacionamentos que ia muito além do funghi, da pasta e do pomodoro. Da comida ao afeto, à amizade, a um jeito de levar a vida próximo de seus próximos. Sem pressa, sem avidez, sem a necessidade da expansão e do lucro, preservando valores que, em última análise, consistia na zona de conforto daquela gente.

Por que estas lembranças todas? Porque o governo do Chile, informa o jornal digital nexo, está justamente abrindo um programa para estimular e dar sustentação a este tipo de negócio: o pequeno comerciante, o pequeno produtor, a pequena rede de consumidores, cuidando do bairro, da vila, para cuidar do país.

Na minha infância havia quitandas e mercearias onde se chamava o português pelo nome e se anotava a compra na caderneta para pagar no fim do mês. Não tenho saudades daquele tempo, só penso que era diferente, melhor sem dúvida do que que a relação insípida e impessoal que (não) tenho com os atendentes do supermercado que frequento – às vezes “frequento” até por meio do meu computador…

As mercadorias não veem das hortas dos arredores, porque não há arredores, tampouco leiteiros, vinhateiros, hortelões e quetais – há até um movimento, insípido, surgindo nas cidades brasileiras em torno dos orgânicos, mas isso é outra história.

No Chile, retomar esta rede de proteção alimentar e familiar é programa de governo; além da alimentação certamente protegerá a relação das pessoas, aproximando-as ou impedindo que se afastem.

Impedindo que não deixem de se enxergar: outro dia na fila do supermercado, um senhorzinho tentou de todo modo puxar uma conversa, em vão, uma, duas, três vezes com a moça do caixa e com o rapaz do pacote.

Mas eles não falam com estranhos…

 

 

 

Cordial é o cacete!

Estudo comprova o que sentimos na pele: o brasileiro é um intolerante, perdeu a cordialidade, e sua artilharia da estupidez são as redes sociais

Em meio ao tiroteio de baixarias que rolou dois anos atrás, durante as eleições que reconduziram Dilma ao Planalto, tinha um povo bem assustado com o enlouquecido nível dos enfrentamentos, de lado a lado. Petistas e Tucanos, coxinhas e mortadelas perdiam a linha, botavam a mãe no meio e a culpa no outro.

A mim aquilo tudo, o exacerbamento e o ódio que transbordavam, nada mais era do que um reflexo muito bem acabado do nosso espírito (de porco) e dos nossos (tristes) dias.

Numa coluna publicada na Folha em 25/10/2014, em que por uma questão de bom tom solicitado pelo jornal o título era “Cordial é o C.!”, escrevi o seguinte: “Os xingamentos, a baixaria, a dissimulação, a intolerância que têm como epicentro as eleições e como cenário mídias, propaganda política e sobretudo redes sociais, nada mais são que a emulação da grosseria, da violência, do egoísmo, da incivilidade, da incordialidade, digamos assim, que vivenciamos todos os dias nos mais variados lugares, não importando nem um pouco quem vota em quem.”

Na ocasião eu atirei no que via e, hoje, percebo que acertei no que apenas intuía: o foco predominante, o protagonismo das redes sociais nesta avacalhação nacional, esta avacalhação em que falta respeito, tolerância, classe.

E constato isso por meio de um estudo a um só tempo estimulante e desanimador: estimulante porque consagra a plataforma digital Torabit como instrumento indispensável para se entender o vasto mundo das redes sociais hoje, e desanimador justamente por aquilo que os algoritmos da Torabit -empresa comandada por Stephanie Jorge e Caio Tulio Costa – revelam.

O estudo surge no contexto da iniciativa inovadora e corajosa da agência Nova /SB, do publicitário Bob Vieira da Costa, que se chama “Comunica que Muda”. O projeto (lembre-se, de uma agência de publicidade que tem clientes e que portanto precisa fazer dinheiro) põe em discussão temas espinhosos como maconha, mobilidade, suicídio, lixo e, entre outros, a intolerância.

Que foi exatamente o que a Torabit pesquisou no mundo virtual: intolerância, preconceito, ódio.

Em artigo publicado na Folha dias atrás Bob Costa revelou detalhes (assustadores) da coisa toda. Primeiro deu um panorama geral: “A internet vem ajudando a derrubar o mito de que nós brasileiros somos tolerantes às diferenças. Histórias que desnudam a intolerância entre nós surgem a cada dia. Para cada caso com pessoas conhecidas noticiado na mídia, há outros milhares nas redes sociais. Cabelo ruim, gordo, vagabundo, retardado mental, boiola, malcomida, golpista, velho, nega. Expressões como essas predominam nas nuvens de palavras encontradas em posts que revelam todo tipo de intransigência ao outro, em vários aspectos: aparência, classe social, deficiência, homofobia, misoginia, política, idade, raça, religião e xenofobia.”

Mais adiante forneceu dados de arrepiar: “…as redes sociais apenas amplificaram discursos existentes no nosso dia a dia. No fundo, as pessoas são as mesmas, nas ruas e nas redes. Vejamos: o Brasil lidera as estatísticas de mortes na comunidade LGBT (dado da Associação Internacional de Gays e Lésbicas); mata muito mais negros do que brancos (Mapa da Violência); aparece em quinto lugar em homicídios de mulheres (Mapa da Violência); registrou aumento de 633% nos casos de xenofobia (Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos); e 6,2% dos seus empregadores confessam não contratar pessoas obesas (site de recrutamento).”

E chega ao ponto que, para mim, é nevrálgico, qual seja a musculatura avassaladora da intolerância no ciberespaço, aferido pela Torabit: “De abril a junho, foram analisadas nada menos que 393.284 menções aos tipos de intolerância citados no início do texto. O percentual de abordagens negativas dos temas ficou acima de 84%. No caso do racismo, chegou a 97,6%.”

Em termos de intolerância geral, o Rio de Janeiro tem o maior número de citações (58.284), mas, proporcionalmente à população, o Distrito Federal é o campeão nacional da porradaria.

Mesmo diante de quadro tão desanimador, Bob Costa demonstra um otimismo no mínimo desafiador: “Suportar o outro é só o começo de uma evolução. Tolerar é manter uma relação positiva com pessoas completamente diferentes. É um processo de mão dupla, aceitar para ser aceito. Não é um caminho fácil. O primeiro passo, sem dúvida, é tornar o debate de interesse público, fazer explícitas as ofensas cotidianas.”

Ok, vamos ao debate, à denúncia, à exposição propositiva das mazelas.

Mas tenho sérias dúvidas sobre onde chegaremos e em que estado, do ponto de vista moral…

 

***

Aliás e a propósito, como bem lembrou o jornalista e escritor Pedro Doria em sua sempre bacana newsletter “Um Pouco de História”, o tal brasileiro cordial está fazendo 80 anos. Ou pelo menos o mito do brasileiro como homem essencialmente cordial surgido da leitura (para muitos equivocada) do livro “Raízes do Brasil”, de Sergio Buarque de Holanda, publicado em 1936.

Por que, se mito, o mito sobrevive tanto tempo – mesmo que esteja se deteriorando via ferramentas da contemporaneidade?

Para responder a esta questão Doria dá algumas ótimas pistas, mas talvez seja o caso mesmo de se (re) ler este livro, sempre alojado entre os primeiros em qualquer lista que se faça de obras que ajudam a entender um pouco mais esta bagunça chamada Brasil…

—————————————

Pela ordem, as citações:

Minha coluna da Folha

Torabit

Artigo do Bob Costa: 

Projeto Comunica que Muda

“Um Pouco de História”

 

 

 

Gordofobia, gordices, preconceito

GordinhosSer gordo é “ruim”, deixa você “mal”, não é “cool”.

Descobri isso da maneira mais estranha possível: emagrecendo.

Hoje estou 17 quilos mais magro do que estava no começo do ano, depois explico por qual razão.

Mas praticamente todo dia, ou ao menos quando encontro com gente que não me vê há algum tempo, é a mesma coisa: Nossa, como você está bem, perdeu a barriga! Poxa, emagreceu, hein, que bom! Uau, como você está elegante! Gato!

Ou seja, antes eu estava mal, não aparentava nada de bom, era barrigudo, deselegante e feio?

Parece que sim…

Eu já sabia disso, mas senti na pele, por vias transversas: a gordofobia é um fato.

Ou a pessoa é engraçada, simpática e amiga porque é gorda, ou é feia, deselegante e doente pelo mesmo motivo.

Gordices incomodam os outros, em geral muito mais do que aos próprios gordos. Embora estes devessem se incomodar mais do que o fazem, porque está bem comprovado que excesso de peso e barriga grande fazem mal para a saúde – coração, vísceras, músculos, sangue, articulações – e para a autoestima, este caso agravado por um fator cultural que no Brasil ultrapassa qualquer barreira de e respeito e boa educação: baleia, balão, rolha de poço, pelota, porquinho, panetone, esvazia-piscina e por aí vai.

Bem, existe hoje uma epidemia de obesidade no mundo, e o Brasil está incluído nela.

Há muitos fatores que determinam isso, mas existe um certo consenso em torno do seguinte: antes, as pessoas em geral comiam pouco (ou menos) porque não havia alimentos em abundância para todos. Até 100, 150 anos atrás era difícil obter alimentos, pobre não tinha acesso a não ser ao básico do básico do básico e olha lá. E os ricos ou os mais ou menos tinham acesso a produtos naturais que seriam transformados em comida – que podia ser ingerida em muita quantidade e também engordar.

Mas não havia, como hoje, a abundância de produtos industrializados acessíveis a quase todos em quase todo lugar. E em geral produtos de baixa qualidade do ponto de vista da saúde. Produtos que engordam.

Gôndolas de supermercados, máquinas automáticas nas estações do metrô, lojas de conveniência, padarias, lanchonetes, camelôs e/ou ambulantes – a porcariada é muita e disponível.

Um documentário da BBC (a melhor TV de não-ficção que existe) apontou para o x da questão: a bomba da obesidade é detonada pelos produtos de fácil acesso que trazem a explosiva mistura de açúcar com gordura.

Um e outro existem na natureza.

Os dois juntos, não; é fruto e obra da ação humana, que ainda conta, para turbinar esta fórmula maligna, com a ajuda da farinha refinada, da carne processada, de aromatizantes e acidulantes e um monte de outras coisas estranhas de nomes impronunciáveis.

Em muitos dos casos – e é aí que mora o perigo, o resultado é de-li-ci-o-so!

Mas está matando o homem.

Mulheres e crianças aí incluídas.

Reportagem publicada outro dia em O Globo, que replicava pesquisa da prestigiada revista médica The Lancet, trazia dois dados preocupantes, um dele novo e bem alarmante.

Primeiro: os pesquisadores chegaram à conclusão de que pessoas obesas têm sua expectativa de vida reduzida em cerca de 10 anos – o que o próprio censo comum já intuía que isso de alguma maneira.

Segundo: estar apenas acima do peso já reduz a vida da pessoa em um ano.

Isso sim é novidade, isso sim chama a atenção, porque se tinha como certo que uns quilinhos a mais não significavam nada.

Ok, um ano a menos de vida pra quem vai 85, 90 anos não é nada, certo?

Mais ou menos.

Não é “nada” quando se é jovem, mas à medida que se envelhece isso torna-se “tudo”.

E pode piorar muito à medida em que se vai envelhecendo e/ou engordando. Veja o que afirmou o coordenador da pesquisa, Emanuelle Di Angelantonio, que atua em Cambridge, no Reino Unido, à agência de notícias France Presse: pela primeira vez há um estudo “definitivo” demonstrando que sobrepeso e obesidade estão relacionados não apenas a qualidade de vida, mas também e de forma significativa ao risco de morte prematura.

Bem, se a gente pensar que a epidemia mundial de gordura atinge nada menos do que metade da população brasileira, pode-se dizer: estamos fritos – aliás, fritura contribui muito pra isso…

GordoGorda

Para encerrar, mais duas coisas:

1 – a questão do peso ideal, sobrepeso e obesidade é polêmica: quando se está num, quando atingiu-se o outro ou chegou-se ao terceiro? Tem muita gente que não concorda com o tal cálculo do Índice de Massa Corporal e sua tabela, que coteja sexo, peso e altura, mas é o que temos (para checar o seu IMC, clique aqui: http://migre.me/upsfx)

2 – Perdi 17 quilos em poucos meses, caí de 103 para 86, depois de uma dieta rigorosa e mudanças de hábitos que, confesso, ocorreram com certa facilidade, meio que naturalmente – perdi o gosto pelas gordices, como menos, me exercito mais, passei a maneirar o álcool e o açúcar e coisas assim. Fiz isso por três motivos: tive uma arritmia cardíaca (também causada por ansiedade), levei um tombo ridículo e me esborrachei no chão feito uma abóbora madura e pesada e estava me sentindo muito mal – para dormir, para levantar da cama, caminhar, namorar, socializar, viver. Isso sem falar, claro, da pressão alta e dos altos índices de colesterol, triglicérides, ácido úrico e glicose.

Se você está mal no IMC ou quer emagrecer por motivos semelhantes aos meus, recomendo muito, pois a vida muda mesmo.

Danem-se a gordofobia e o preconceito das pessoas: procure um médico bacana, mude hábitos, sinta-se melhor.

E viva mais.

Ou não: quem dera se o fim da vida dependesse unicamente daquilo a gente come…

Um argentino que sabia tudo de cinema e de Brasil

"Pixote" e Marília Pera, na cena mais dramática do filme de Babenco
 Marília Pera, na cena mais dramática do filme “Pixote”

Pouco menos de um mês atrás, num sábado ensolarado e fresco de junho, fui almoçar em um simpático restaurante português que fica num canto sossegado dos Jardins, em São Paulo.

No meio de nossa refeição, chega Hector Babenco e sua mulher, a atriz Barbara Paz, e sentam-se numa mesa não muito longe da nossa.

Ele caminhava com dificuldade, apoiado em uma bengala, aboletou-se na mesa e acabou ficando de costas para mim, impossível dar um oi à distância.

Se tem uma coisa que eu detesto, tanto para mim mas principalmente para os outros, é interromper refeição para bater papinho, um sentado outro em pé, chato e constrangedor, sobretudo quando isso envolve gente famosa.

– Eu queria dar um alô pro Babenco, mas não estava afins de incomodá-lo,  disse à Nelcy, minha mulher.

– Vai lá, sim, ele vai gostar – ela me disse.

Continuei comendo e bebendo (um vinho alvarinho bem meia-boca, aliás) e pensando: vou, não vou, vou, não vou…

Eis que a Barbara se levanta, provavelmente para ir ao toalete, e lá está ele, ainda de costas, mas sozinho.

Antes de tomar a decisão de finalmente ir cumprimentá-lo, um filme rapidamente passou pela minha cabeça.

Neste filme, “rodado” em 1980, estava sentado à minha frente o diretor de cinema Hector Babenco, que morreu na noite desta quarta-feira, o ator mirim Fernando Ramos da Silva, mais alguém da equipe deles e outros “figurantes”, digamos assim, todos em volta da mesona da sala de reuniões do jornal “O Estado de S. Paulo”, que à época só era chamado de “Estadão” pelos íntimos.

O motivo do encontro era o lançamento um dos melhores filmes já feitos neste país, “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, dirigido por Babenco, estrelado pelo garoto magrelo ali na minha frente e pela grande Marilia Pera, que infelizmente não estava presente.

O filme que passava na minha cabeça naquela tarde de sábado cortou rapidamente para uma outra cena, de uma outra obra de Babenco, “Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia”. Nesta, o personagem principal, um famoso ladrão (interpretado com genialidade por Reginaldo Farias) que foi perseguido e torturado pelas forças do Estado e que nunca se acertou com os “homens” para roubar em paz, diz o seguinte: “Polícia é polícia, bandido é bandido”. Justificava sua atitude meio suicida e totalmente destoante do ambiente de então e também, até certo ponto, de agora, em que polícia e bandido (assim como bandido e político…) podem ser uma coisa só.

O meu filme particular segue em frente, enquanto observo as costas arqueadas de Babenco, envergando um casaco bege um pouco quente demais para a temperatura ambiente, e a cena que observo então é pavorosa: o chão de uma ala do principal presídio de São Paulo, o Carandiru, coberto por uma maré vermelha. Sangue, muito sangue, jorros do sangue dos 111 presos assassinados pela PM paulistana, sem possibilidades de defesa, como se provou depois, na maldita invasão de 1992, fielmente retratada no livro do Dráuzio Varela e magistralmente levado ao cinema pelo Babenco.

Assim que terminou de passar pela minha cabeça esta cena, e antes que a mulher do cara voltasse, eu disse à minha companheira:

– Eu vou lá

E levantei e fui e toquei levemente no ombro dele e fiz facilmente com que ele se lembrasse de mim, daquela entrevista de tantos anos atrás, de outros (poucos) encontros profissionais ou não, falei de como eu o admirava e de como seus filmes sempre foram marcantes para mim.

– Você já viu meu último filme?

– Não vou mentir pra você, não vi, não…

– Acabou de sair em DVD, me mandaram esta semana. Veja, espero que você goste…

– Com certeza vou gostar (também sou fã do Willem Dafoe…), vou ver logo. Bom almoço, Hector.

– Muito obrigado pelo carinho, querido…

Claro que eu lembrei dessa conversa hoje cedo quando li um post do Gerald Thomas lamentando a morte do Babenco. Claro que me deu um frio na espinha: já pensou se eu não tivesse ido falar com ele, que tristeza seria?

E não teria como deixar de pensar no seguinte: interessante como um intelectual argentino que se naturalizou brasileiro teve, em três grandes momentos de sua carreira, uma capacidade tão grande de retratar a alma deste país em particularidades nada lisonjeiras, mas necessárias de serem enfrentadas: a truculência e a corrupção policial em plena ditadura militar, mostrada de maneira crua e direta (“Lúcio Flávio”, 1977), o malfadado destino dos meninos de rua desenhado com lirismo, poesia e respeito, sem perder a carga dramática (“Pixote”, 1980) e o escândalo, o horror, a desumanidade do sistema prisional brasileiro e, mais uma vez, da truculência policial, reproduzidos como um soco no estômago, com toda sua variação cromática, sempre em magenta, a cor do sangue derramado aos borbotões em meio à fumaça da pólvora dos disparos covardes (“Carandiru”, 2003). Ainda e sempre, tudo entremeado por lirismo, poesia e técnica apurada na construção de personagens únicos.

Ainda não vi o que Babenco “fez” com Williem Dafoe em “Meu Amigo Hindu”, vou ver logo. Mas certamente encontrarei ali o talento incomensurável de quem teve a manha de conduzir gente como Jack Nicholson, Meryl Streep, Raul Julia, William Hurt, Sonia Braga, Marília Pera,Tom Waits, John Lithgow, Tom Berenger, Gael Garcia Bernal e todo o fantástico e riquíssimo elenco de “Carandiru”.

Outro dia você me disse: “Obrigado pelo carinho”.

Eu é que agradeço, Hector Babenco…

Pornografia para crianças?

thumb

Não, não se trata de pornografia infantil, aquela que mobiliza centenas de milhares de tarados, doentes, pervertidos e criminosos em geral ao redor do mundo, rende milhões de dólares e corrói generalizadamente a alma dos pobres inocentes envolvidos.

Não, o papo aqui é o acesso de crianças e adolescentes à pornografia.

Desconheço números ou pesquisas que deem a dimensão exata do problema, mas ele é grave, cresce e assusta.

Senão, vejamos duas informações recentes com as quais tive contato – omitindo nomes e fontes, porque este é um assunto por demais delicado.

Uma médica norte-americana especializada em atendimento ginecológico a adolescentes revelou outro dia que é cada vez maior o número de meninas que a procuram, muitas vezes de maneira envergonhada e escondida dos pais, para trata de problemas sérios – dilacerações, incontinências, infecções e coisas do gênero – causado por sexo anal.

Depois de fazer considerações sobre a anatomia das meninas, totalmente imprópria para este tipo de atividade, portanto suscetível a toda modalidade de ferimentos, a especialista relatou que as jovens acabam partindo para esta prática ou por insistência dos meninos e/ou por considerá-las ok. Os meninos insistem e elas acham ok porque veem isso acontecer muito, o tempo todo na internet. E como elas também assistem àquilo tudo como fonte de prazer, acham que tudo bem.

É atraente, parece fácil, parece gostoso, parece “cool”? Mas não é. O que se vê na internet em geral é coito praticado por adultos profissionais,  impossível de ser replicado por corpinhos ainda em formação.

Machuca, humilha, fere a intimidade e a alma dessas crianças.

A outra informação é daqui mesmo, prestada por uma mãe classe média alta, esclarecida e afeita às tecnologias. Ela relatou que está por demais preocupada com todos os tipos de perversão a que os pequenos têm acesso facílimo via internet.

Pior: via telefones celulares, smartphones.

Como disse, esta mulher é afeita a tecnologias, assim ela e o marido, logo que tomaram conhecimento do problema, bloquearam o aparelho dos filhos para conteúdos impróprios, controlando aquilo que eles acessam.

Resolvido o problema?

Não.

Porque outros pais de outras crianças não se deram conta do que está acontecendo – ou simplesmente não estão nem aí. Assim, os filhos deste casal continuam tendo fácil acesso a pornografias por meio dos aparelhos de coleguinhas em sua escola. E sua escola é uma das melhores e mais conceituadas de São Paulo…

Afirmei acima que desconheço a proporção do problema, mas há um dado que permite a gente avaliar (e se apavorar com…) o tamanho do estrago que esta situação pode causar na formação sexual e moral de nossas crianças. Uma pesquisa divulgada pelo Comitê Gestor da Internet do Brasil revela que nada menos que 82% de nossos jovens acessam a internet por meio de celulares – estes mesmos celulares em que a pornografia pulula livremente.

Sabe qual é a idade dos que responderam à pesquisa? Entre 9 e 17 anos…

 

thumb-2

 

Faça um teste agora: digite na busca do seu celular as palavras “sexo grátis”. Fez? Eu também fiz: são centenas de páginas, sites em que basta um click para ver coisas que deixariam coradas a mais liberal das pessoas: banhos de esperma, transas a quatro ou cinco, dupla ou tripla penetração, sexo com animais e por aí vai…

Ok, você pode bloquear o celular do seu filho ou filha, é um ótimo começo, tente aplicativos como Kids Control, Kaspersky Parental Control, Family Guardian, Smylesafe Parental Controls ou Net Nanny, por exemplo – há outros.

Sim, o assunto é incômodo, difícil, constrangedor, mas converse com sua cria, seja amigo, parceiro, interessado, pergunte a ele sobre seus hábitos e os hábitos de seus amigos, conheça estes amigos e suas famílias, fale abertamente sobre os perigos desta vida, como fazer sexo, sobretudo desregrado e devasso, antes de se tornar adulto  – depois, fica a critério de cada um.

Mas não faça de conta que seu filho usa o celular apenas para joguinhos inocentes e para mandar Whatsapp pra você.

Provavelmente isso não é verdade.