A Escolinha do Professor Cunha

 

Tenha você comemorado ou lamentado o resultado da votação de ontem, uma coisa é preciso admitir: aquilo tudo foi uma aula de Brasil comandada pelo Professor Cunha.

Vejamos o que foi possível aprender ontem:

1 – que aqueles seres estranhos, com cabelos implantados e/ou tingidos de acaju, ostentando gravatas berrantes e camisas cintilantes, sob ternos mal cortados; aquela maioria que você ouviu usando um português muito esquisito para dedicar o voto à neta, aos filhos mortos Bruno e Felipe, à mãe Nega Lucimar, à renovação carismática ou à família quadrangular; aqueles que os entendidos costumam chamar de baixo clero do Parlamento, eles são o retrato mais bem acabado do Brasil hoje.

Achei engraçado ontem, durante a votação, um monte de gente instruída assustada nas redes sociais, manifestando estranheza com aquelas pessoas: quem é, nunca vi, por que fala assim, que roupa estranha é essa?

É, meu amigo, minha amiga, este é o Brasil descendo a ladeira, o Brasil profundo do coronelismo e do clientelismo: a grande, a imensa maioria daqueles “parlamentares” – oposição ou situação – não teve votos suficientes para ter direito ao lugar que passou a ocupar na última eleição. Menos de 10% dos deputados receberam em 2014 votos suficientes para se eleger diretamente. Todos os outros conseguiram o mandato apenas e tão somente por conta da soma dos votos dados à legenda ou de outros candidatos de seus partidos ou coligações. Lição boa para votar nas próximas eleições.

2 – Outra lição aprendida na Escolinha do Professor Cunha diz respeito exatamente ao “docente”. Pelo que se viu, o cara tem mais sangue frio do que toda a famiglia Corleone junta! Foi chamado de canalha, gângster, ladrão e nada, nem piscou. Como eu disse no Face ontem mesmo: é um escárnio, uma vergonha, um vexame Eduardo Cunha sentar-se naquela cadeira e comandar uma votação tão séria e importante para o país. Ele não tem moral ou caráter nem para comandar reunião de condomínio, deveria estar preso, com bens bloqueados, contas na Suíça arrestadas e proibido de deixar o país. Impossível ser a favor do impeachment e aceitar este absurdo.

Lição de casa: tente levantar todas as acusações que pesam contra Cunha. Não valem os U$ 5 milhões na Suíça, nem os carrões em nome da sua ilibada empresa, Jesus.com, nem os R$ 52 milhões de propina delatados pelo tal do Ricardo Pernambuco, nem o texto em que o STF aceita a denúncia do Ministério Público Federal contra ele por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, tornando-o réu na mais alta corte do país.

Isso tudo, na verdade, coroa uma carreira de sucesso, iniciada lá nos anos 1990. Quando eu era diretor da Folha no Rio de Janeiro naquela época, fomos obrigados a designar um repórter só para ir atrás das falcatruas que ocorriam na Telerj, então dirigida por Cunha por determinação de Fernando Collor e sob a supervisão de um certo P.C. Farias.

3 – A terceira lição apreendida ontem diz respeito ao fato de que muita gente quer, mesmo, de volta um dos períodos mais terríveis da nossa história recente. A ditadura militar que durou 21 anos neste país foi ovacionada em plenário quando um dos seus principais personagens, o notório torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que dirigiu o terrível Doi-Codi, braço armado repressivo e massacrante do regime, foi homenageado pelo Jair Bolsonaro.

Ustra é culpabilizado e foi indiciado por mortes e dezenas de casos de tortura. Era o chefe, mas assim como os carrascos dos campos de concentração do nazismo, sempre tinha a justificativa na ponta da língua: “Eu cumpria ordens”. Morreu antes de ir aos tribunais.

4 – Por fim, uma aulinha básica de política pode-se tirar do espetáculo de ontem: você que acreditou que a jogada é “tiramos a Dilma agora, depois despachamos o Cunha”, pode se decepcionar muito rapidamente: já há uma forte corrente de deputados (aqueles das roupas, cabelos e discursos esquisitos, sabe?) articulando para conseguir uma “anistia” a Cunha, para que ele não seja cassado. A alegação: ele conduziu tão bem o processo de impeachment na casa…

É um mestre, não?

 

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13 pensamentos em “A Escolinha do Professor Cunha”

    1. O Cunha depassou o mestre já virou doutor. Isso me fez pensar na primeira vez que fui no Rj. Perguntei para o cobrador do onibus ” aquí tem muito pivete? ” e ele me respondeu ” Não,tão todos formados e já são ladrões”.

  1. Por favor não demore para escrever. Só um pequena colocação, os homenzinhos engravatadinhos de gravatinha colorida que o povo estranhou tanto por comentários inconformados espalhados pelas mídias, não é o Brasil descendo a ladeira, É o reflexo da eleição brasileira….

  2. Caro Carvesan !! Brilhante síntese funesta e bem humorada deste lamentável episódio cívico , que conclama nossa união, para projetar novos horizontes para esses jovens-nós-ontem. Adorei o blog. Baci Edú Trani

  3. Quem diria que teríamos a multiplicação de deputados como os do Prona que o Éneas ajudou a colocar dentro da câmara? Quem diria que o Collor deixaria um órfão que hoje comanda o segundo impeachment na recente história da democracia brasileira? Quem ainda não consegue ver que esse saudosismo do regime militar coloca em risco todas as recentes conquistas especialmente com relação aos direitos humanos no Brasil? Quem vai bater as panelas para tirar Temer e Cunha?

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