Paulistanos de quinta

Favelinhas proliferam em São Paulo, gente desvalida se espalha ainda mais pelas calçadas e marquises. E todos esperam que o poder público assuma uma responsabilidade que é de todos nós

São Paulo tem ganhado ultimamente um monte de favelinhas.

No auge do frio, a Prefeitura deu de arrancar na marra as tralhas dos moradores de rua, inclusive cobertores, mesmo com a temperatura em um dígito.

Morreu gente, outros quase, protestos nas redes sociais, desumanidade.

Pararam de perseguir os sem-teto por um tempo.

Resultado: eles se multiplicaram e se espalharam, sobretudo na região central da cidade. Os que estavam escondidos saíram de suas tocas imundas e os que viviam nas rebarbas da cidade foram para as regiões mais centrais em busca de um pouco menos de sujeira, mais comida, mais vida, talvez.

Cobertores amarrados na grades, barraquinhas de plástico, latas, comida velha, bebida ruim, “gente estranha fazendo coisas esquisitas”.

Os sem teto sempre estiveram por aí, nenhuma administração anterior nem a atual conseguiu dar conta do problema, tampouco trata-se de exclusividade paulistana, brasileira.

Mas o que chama a atenção é justamente isso: nunca houve uma política efetiva, consistente e contínua que de fato conduzisse o problema encarasse-o de frente e mantivesse programas permanentes de atenção verdadeira a esta gente – é gente, viu?

Arrancar tralhas e depois abandonar, voltar a arrancar (como está acontecendo de novo), criar e manter abrigos para onde estes desvalidos não querem ir e/ou fazer de conta que eles não existem.

Isso não é política pública.

O que fazer?

A complexidade do problema exige ação conjunta e conjugada, parcerias público-privadas, decisão de dar uma vida decente para quem nada tem e vive do outro lado da dignidade.

Não adianta agora, em meio ao calor da campanha política que se inicia, vir com conversa de zelador, higienista, “eu faço e aconteço”.

Vamos ver, vamos cobrar.

Mas que fique claro que não é um caso apenas de política e sim de cidadania, diz respeito a toda a população.

Claro, o poder público deve construir e liderar uma nova ordem.

Não para deixar as ruas de São Paulo mais “limpinhas”. Mas para dar dignidade a estes cidadãos de quinta categoria, que já não eram poucos, hoje são muito mais, e estão pelas ruas e calçadas exibindo nosso fracasso – sim, não adianta apenas tapar o nariz e virar a cara.

 

Eles também são desta cidade

Esta cidade também é deles.

Carta ao pai distante

No Dia dos Pais, rememoro aqui a cartinha que escrevi em 2006 para o seu Hermínio, que já tinha partido havia 10 anos

Querido pai,

Pensei muito antes de decidir escrever esta cartinha, para a qual busquei inspiração em uma que fiz mais de 40 anos atrás, sob os cuidados da querida professora Benedita Célia, lá do grupo escolar da Vila Esperança.

Lembrei-me de que, naquela ocasião, tive de ler a carta, porque seu analfabetismo impedia que pudesse fazê-lo sozinho.

Mas hoje escrevo diretamente para você, porque tenho certeza de que, no lugar onde se encontra já lá se vão quase 10 anos, todos sabem ler, escrever, cantar e dançar e também podem ser chamados de você, não mais de senhor, como eu fiz da primeira à última vez, quando falamos na véspera de sua morte.

Bem, mas agora você está longe e ao mesmo tempo aqui pertinho, e minha carta nos aproxima ainda mais, porque Dia dos Pais é para isso mesmo, apesar da gastança inútil toda –na minha primeira infância, eu sempre te dava de presente apenas um frasco de loção após barba, e você adorava…

Referi-me logo acima ao fato de todos dançarem aí no céu, então você deve estar se divertindo, né, seu pé-de-valsa?!

Lembro-me tão bem dos bailinhos na varanda de casa, nos quais você saia rodopiando com minhas irmãs, que depois acabaram me ensinando a dançar, bolero, samba e quetais, o que sei até hoje.

Seus mais de cem quilos desapareciam como que por encanto quando o Lucho Gatica mandava bala no “Besame Mucho”, e lá ia você todo pimpão.

Claro que nunca aprendi a rodopiar como você, mas sabe que eu herdei a tal “cara de bravo” que você tinha? Até que é uma boa, né, porque, enquanto todos pensam que estamos a ponto de sair no braço, na verdade, por trás da carranca, a gente está se divertindo. Você era um tremendo gozador, que eu sei. E adorava contar umas mentirinhas… Mas tudo bem, porque seu coração era enorme, sua capacidade de trabalho, inesgotável e sua mania de ser “viva e deixe viver” não tinha igual.

Por isso você era um cara muito querido por todos no bairro.

Toda tarde, quando você tomava banho e ficava fumando no portão, não tinha um que passasse na rua e não o cumprimentasse, o que me deixava muito orgulhoso.

Claro, você tinha seus defeitos, e minha mãe não deixava barato. Como o fato de nunca ter conseguido aprender a ler e escrever corretamente. Mas o que minha mãe não levava em conta é que, mesmo assim, você era capaz, por exemplo, de montar e desmontar uma máquina gigantesca como um tear industrial ou uma empacotadora de biscoitos, acompanhando diagramas inextrincáveis e ainda se comunicando sabe-se lá como com engenheiros alemães!

E minha mãe também implicava contigo, dizendo que você não era um bom comerciante (ela era ótima, lembra?). Ora, eu também sempre fui péssimo para vender qualquer coisa, e acabei sobrevivendo, como você sobreviveu, criou três filhos e construiu, no muque, três casas, do alicerce ao telhado, ao encanamento (aí você era bamba!) e até mesmo à instalação elétrica.

Essa eu nunca vou esquecer: quando mexia com eletricidade, você sempre me chamava para “ajudar” e, segurando no fio descascado, relava a mão em mim só para rir do pulo que eu dava com o choquinho, que você mesmo nem sentia.

Pai, você era um camarada (adorava esta palavra…) impressionantemente especial na sua simplicidade e humildade.

Lembro-me perfeitamente, pouco antes de sua morte, naquele mesmo portão, mas já sem o cigarro, porque o primeiro infarto já o havia atingido, quando lhe perguntei se você tinha medo de morrer, e você disse que não, de jeito nenhum, com aquele seu sorriso calmo e simpático nos lábios.

Claro que não, você não tinha medo de nada! Pena que tenha sofrido tanto com o segundo infarto…

Bem, está difícil de continuar escrevendo, porque as lágrimas teimam em fugir ao controle, mas só queria dizer mais uma coisa: obrigado.

Obrigado por ter sido quem foi, mesmo sem nunca ter lido nada do que escrevi _mas eu fui virar justamente jornalista, escritor, caramba!

Obrigado pela noção de honestidade, trabalho, generosidade e correção que você praticou e me ensinou.

Obrigado por todas as vezes que me levou nas costas nadando suavemente, pelos lambaris que pescamos juntos, pelas telhas que colocamos no telhado da casa da praia e pelo amor que você sempre fez questão que demonstrar por mim e por minhas irmãs queridas.

São esses ensinamentos e esses sentimentos que, para mim, fizeram de você um pai especial.

Aquele pai que eu faço questão de recordar aqui e agora para homenagear todos os bons pais que porventura lerem essa cartinha, neste Dia dos Pais.

 

A rede que nos protege

A zona de conforto que se forma em torno dos pequenos negócios locais aproxima as pessoas, promove afetos e torna a vida mais saudável

Morei na Itália quase um ano, final dos 1990, período sabático, estudar italiano e aprender culinária e história da arte –aprendi pouco de tudo.

Em Firenze (ou Florença), morava longe do centro turístico, via San Nicolò, do outro lado do rio Arno, num estúdio reformado no último pavimento de um edifício de três andares construído em 1420 – 80 anos antes do Brasil ser descoberto.

No térreo do meu prédio havia um misto de quitanda com mercearia.

Tinha sido de um casal que envelhecera e estava então passando o negócio para a filha e o genro. Todas as manhãs, a moça abria a pequena porta para receber as mercadorias, fornecidas também por pequenos comerciantes dos arredores – verduras e legumes frescos, ovos, alguma carne, embutidos, leite, macarrão, pão, vinho e alguns doces.

Tudo vinha em pequenas quantidades, porque eram coisas para serem vendidas naquele mesmo dia. Não havia estoque, não precisava disso: os compradores eram moradores do bairro – inclusive eu -, que adquiriam apenas o que iriam consumir naquele dia. No dia seguinte haveria disponíveis novamente produtos frescos, pra que guardar?

A freguesia era local, fiel e barulhenta. Não apenas comprava, mas discutia política, economia, futebol, a vida dos outros, chamava-se pelo nome (o da moça era Carmela, o do pai, sempre sentado emburrado num banquinho à entrada do estabelecimento, nunca ousei perguntar; no máximo arriscava um buon giorno…).

O forte do movimento era mesmo pouco antes do almoço, quando a lojinha lotava e a mercadoria ia embora. Depois do meio dia, a porta fechava, Carmela ia cuidar, também ela, do almoço da família, depois vinha a siesta, para tudo recomeçar por volta das 5 da tarde, com o movimento em direção ao jantar.

Com o tempo e com a frequência que mantive percebi que aquilo não era apenas um negócio, mas um estilo de vida.

Como aquele, existiam dezenas de comércios familiares nos bairros todos, em torno dos quais formava-se uma rede de relacionamentos que ia muito além do funghi, da pasta e do pomodoro. Da comida ao afeto, à amizade, a um jeito de levar a vida próximo de seus próximos. Sem pressa, sem avidez, sem a necessidade da expansão e do lucro, preservando valores que, em última análise, consistia na zona de conforto daquela gente.

Por que estas lembranças todas? Porque o governo do Chile, informa o jornal digital nexo, está justamente abrindo um programa para estimular e dar sustentação a este tipo de negócio: o pequeno comerciante, o pequeno produtor, a pequena rede de consumidores, cuidando do bairro, da vila, para cuidar do país.

Na minha infância havia quitandas e mercearias onde se chamava o português pelo nome e se anotava a compra na caderneta para pagar no fim do mês. Não tenho saudades daquele tempo, só penso que era diferente, melhor sem dúvida do que que a relação insípida e impessoal que (não) tenho com os atendentes do supermercado que frequento – às vezes “frequento” até por meio do meu computador…

As mercadorias não veem das hortas dos arredores, porque não há arredores, tampouco leiteiros, vinhateiros, hortelões e quetais – há até um movimento, insípido, surgindo nas cidades brasileiras em torno dos orgânicos, mas isso é outra história.

No Chile, retomar esta rede de proteção alimentar e familiar é programa de governo; além da alimentação certamente protegerá a relação das pessoas, aproximando-as ou impedindo que se afastem.

Impedindo que não deixem de se enxergar: outro dia na fila do supermercado, um senhorzinho tentou de todo modo puxar uma conversa, em vão, uma, duas, três vezes com a moça do caixa e com o rapaz do pacote.

Mas eles não falam com estranhos…

 

 

 

Cordial é o cacete!

Estudo comprova o que sentimos na pele: o brasileiro é um intolerante, perdeu a cordialidade, e sua artilharia da estupidez são as redes sociais

Em meio ao tiroteio de baixarias que rolou dois anos atrás, durante as eleições que reconduziram Dilma ao Planalto, tinha um povo bem assustado com o enlouquecido nível dos enfrentamentos, de lado a lado. Petistas e Tucanos, coxinhas e mortadelas perdiam a linha, botavam a mãe no meio e a culpa no outro.

A mim aquilo tudo, o exacerbamento e o ódio que transbordavam, nada mais era do que um reflexo muito bem acabado do nosso espírito (de porco) e dos nossos (tristes) dias.

Numa coluna publicada na Folha em 25/10/2014, em que por uma questão de bom tom solicitado pelo jornal o título era “Cordial é o C.!”, escrevi o seguinte: “Os xingamentos, a baixaria, a dissimulação, a intolerância que têm como epicentro as eleições e como cenário mídias, propaganda política e sobretudo redes sociais, nada mais são que a emulação da grosseria, da violência, do egoísmo, da incivilidade, da incordialidade, digamos assim, que vivenciamos todos os dias nos mais variados lugares, não importando nem um pouco quem vota em quem.”

Na ocasião eu atirei no que via e, hoje, percebo que acertei no que apenas intuía: o foco predominante, o protagonismo das redes sociais nesta avacalhação nacional, esta avacalhação em que falta respeito, tolerância, classe.

E constato isso por meio de um estudo a um só tempo estimulante e desanimador: estimulante porque consagra a plataforma digital Torabit como instrumento indispensável para se entender o vasto mundo das redes sociais hoje, e desanimador justamente por aquilo que os algoritmos da Torabit -empresa comandada por Stephanie Jorge e Caio Tulio Costa – revelam.

O estudo surge no contexto da iniciativa inovadora e corajosa da agência Nova /SB, do publicitário Bob Vieira da Costa, que se chama “Comunica que Muda”. O projeto (lembre-se, de uma agência de publicidade que tem clientes e que portanto precisa fazer dinheiro) põe em discussão temas espinhosos como maconha, mobilidade, suicídio, lixo e, entre outros, a intolerância.

Que foi exatamente o que a Torabit pesquisou no mundo virtual: intolerância, preconceito, ódio.

Em artigo publicado na Folha dias atrás Bob Costa revelou detalhes (assustadores) da coisa toda. Primeiro deu um panorama geral: “A internet vem ajudando a derrubar o mito de que nós brasileiros somos tolerantes às diferenças. Histórias que desnudam a intolerância entre nós surgem a cada dia. Para cada caso com pessoas conhecidas noticiado na mídia, há outros milhares nas redes sociais. Cabelo ruim, gordo, vagabundo, retardado mental, boiola, malcomida, golpista, velho, nega. Expressões como essas predominam nas nuvens de palavras encontradas em posts que revelam todo tipo de intransigência ao outro, em vários aspectos: aparência, classe social, deficiência, homofobia, misoginia, política, idade, raça, religião e xenofobia.”

Mais adiante forneceu dados de arrepiar: “…as redes sociais apenas amplificaram discursos existentes no nosso dia a dia. No fundo, as pessoas são as mesmas, nas ruas e nas redes. Vejamos: o Brasil lidera as estatísticas de mortes na comunidade LGBT (dado da Associação Internacional de Gays e Lésbicas); mata muito mais negros do que brancos (Mapa da Violência); aparece em quinto lugar em homicídios de mulheres (Mapa da Violência); registrou aumento de 633% nos casos de xenofobia (Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos); e 6,2% dos seus empregadores confessam não contratar pessoas obesas (site de recrutamento).”

E chega ao ponto que, para mim, é nevrálgico, qual seja a musculatura avassaladora da intolerância no ciberespaço, aferido pela Torabit: “De abril a junho, foram analisadas nada menos que 393.284 menções aos tipos de intolerância citados no início do texto. O percentual de abordagens negativas dos temas ficou acima de 84%. No caso do racismo, chegou a 97,6%.”

Em termos de intolerância geral, o Rio de Janeiro tem o maior número de citações (58.284), mas, proporcionalmente à população, o Distrito Federal é o campeão nacional da porradaria.

Mesmo diante de quadro tão desanimador, Bob Costa demonstra um otimismo no mínimo desafiador: “Suportar o outro é só o começo de uma evolução. Tolerar é manter uma relação positiva com pessoas completamente diferentes. É um processo de mão dupla, aceitar para ser aceito. Não é um caminho fácil. O primeiro passo, sem dúvida, é tornar o debate de interesse público, fazer explícitas as ofensas cotidianas.”

Ok, vamos ao debate, à denúncia, à exposição propositiva das mazelas.

Mas tenho sérias dúvidas sobre onde chegaremos e em que estado, do ponto de vista moral…

 

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Aliás e a propósito, como bem lembrou o jornalista e escritor Pedro Doria em sua sempre bacana newsletter “Um Pouco de História”, o tal brasileiro cordial está fazendo 80 anos. Ou pelo menos o mito do brasileiro como homem essencialmente cordial surgido da leitura (para muitos equivocada) do livro “Raízes do Brasil”, de Sergio Buarque de Holanda, publicado em 1936.

Por que, se mito, o mito sobrevive tanto tempo – mesmo que esteja se deteriorando via ferramentas da contemporaneidade?

Para responder a esta questão Doria dá algumas ótimas pistas, mas talvez seja o caso mesmo de se (re) ler este livro, sempre alojado entre os primeiros em qualquer lista que se faça de obras que ajudam a entender um pouco mais esta bagunça chamada Brasil…

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Pela ordem, as citações:

Minha coluna da Folha

Torabit

Artigo do Bob Costa: 

Projeto Comunica que Muda

“Um Pouco de História”