O ódio não é burro, a intolerância não é cega

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Erramos, e erramos feio, ao dizer que o ódio é cego, que a intolerância é burra.

Todos aqueles que estão preocupados com a escalada fascista no país, os que se sentem cada vez mais amedrontados com a maneira que são ofendidos os gays, como se atacam as mulheres que fogem ao comportamento padrão; como agride-se, verbal e mesmo fisicamente, todos os democratas e os que defendem e/ou respeitam o direito do outro, qualquer e todo direito, todos estes devem ter bem claro o seguinte: o ódio ocorre dentro de uma evolução muito bem focada em seus objetivos e princípios, assim como a intolerância se desenvolve dentro de uma estratégia bastante inteligente e articulada.

Pode parecer burrice ser ogro, cegueira odiar. Mas, na perspectiva da tomada do poder e da ocupação do espaço na sociedade, não é.

Outro dia alguém disse que as mídias sociais organizaram a imbecilidade. O grande Umberto Eco, pouco antes de morrer disse algo parecido, que a internet deu voz ao beócio, ao energúmeno, a quem nunca seria notado ou ouvido, mas que hoje é não apenas ouvido como tem seguidores.

O que é isso senão o sucesso de uma estratégia de ocupação de espaço, de penetração na sociedade, de consolidação de posições – xenófobas, misóginas, racistas, mas posições políticas e sociais que não devem ser desprezadas, tampouco negligenciadas.

Bolsonaro não é apenas babaca, Feliciano não é só ridículo, os pastores radicais que pregam a discriminação não são apenas carolas inofensivos, assim como locutores, cantores e jornalistas que apontam o dedo na cara de quem não reza pela sua cartilha não são somente opiniões divergentes. Aqueles que se vestem de verde-amarelo, tiram fotos com policia e pedem a volta da ditadura não são apenas personagens de foto do jornal.

Quem acompanha a série “Games of Trones” sabe bem que a série é um desfilar sem fim de crueldades, assassinatos, parricídios, infanticídios e por aí vai. Mas todos eles, aqueles trogloditas infames, temem o “inverno”, um mal maior que se aproxima.

The winter is coming”, repetiram ao longo de cinco temporadas. Pois é, no final da sexta temporada, depois de uma das mais sangrentas e impressionantes batalhas de campo já filmadas, depois que a religiosidade autoritária e incômoda explodiu pelos ares e que os dragões voaram leves livres, soltos e felizes tostando gente aqui e ali, fica-se sabendo: o inverno chegou!

Mal comparando, quem acha que, assim como achavam lá atrás os judeus de Varsóvia, ou outro dia os gays da boate de Orlando ou ainda ontem os viajantes que foram explodidos no aeroporto de Istambul, que não há com que se preocupar, atenção, atenção: “the winter is coming”…

Para ilustrar esta percepção de que há coisas efetivamente fora do lugar e que é preciso, como na velha canção, estar atento e forte, mas além disso ativo e resoluto, reproduzo um discurso surpreendente de Lady Gaga, ela mesma, falando a lado do grande Dalai Lama.

Veja como a diva, ali num pretinho básico, deixa muito claro que não, o ódio não é burro, nem a intolerância cega, nesta ordem ou em qualquer outra (des) ordem:

https://www.facebook.com/rdtlg/videos/559401997580588/

Cidade higiênica, pessoas sujas  

 

Homem Carrinho

São Paulo é uma cidade suja.

Sempre foi.

Sempre tem cara de suja, cinza, poeira de asfalto misturado com borracha de pneu de automóvel, uma poeira fina que penetra nas frestas; limpa de manhã, de tarde já está sujo.

Anos atrás o tentou-se tornar a cidade mais limpa, a coisa certa da maneira errada. Como a municipalidade não conseguia por ordem nas publicidades, cartazes, outdoors, neons, etc., resolveu de uma maneira bem brazuca: proibiu tudo. Mas não criou programas eficientes para que os proprietários cuidassem de suas fachadas.

A cidade ficou limpa?

Não, ficou sem o multicolorido (em geral bem feio, mas nem sempre…) das publicidades e passou a ostentar fachadas horrendas antes dissimuladas, paredes deterioradas, muros encardidos, aberrações arquitetônicas.

Hoje há a predominância dos rabiscos insanos dos pichadores – os grafiteiros continuam “sob controle”…

Quanto mais tentam controlar São Paulo mais ela foge ao controle – basta lembrar que ela inunda porque foi construída sobre seus córregos e lagunas…

Exemplo recente desse controle desajeitado: os moradores de rua.

Como todo ano, a chegada do frio traz o assunto à baila, expõe aquela gente suja que a cidade tolera porque não sabe o que fazer com ela. No frio, os seres invisíveis passam a fazer parte da paisagem ainda e sempre desumanizados.

Não se trata de uma jabuticaba, ou seja, coisa que só tem no Brasil, longe disso.

Segundo dados da ONU, são 100 milhões de pessoas vivendo nas ruas em todo o mundo.

Mesmo nos países desenvolvidos, principalmente depois da crise econômica de 2008 e ainda mais com a recente crise dos refugiados.

Na Alemanha (80 milhões de habitantes) havia em 2012 280 mil pessoas sem ter onde morar. A Espanha (46,6 milhões de cidadãos, apenas o dobro da Grande São Paulo) tinha até pouco tempo 1,5 milhão de famílias em abrigos e 23 mil pessoas morando nas calçadas. E o minúsculo Portugal (10 milhões de patrícios), cerca de 4 mil moradores de rua só em Lisboa e no Porto.

E o grande ricaço do norte, os Estados Unidos? Tinha mais de 600 mil “homeless” em 2012.

Dados mais recentes: 57 mil pessoas vivendo nas ruas de Nova York, população de 8,5 milhões.

Aqui do lado é assim: Buenos Aires (Argentina) tem 15 mil pessoas morando na rua para uma população de 3 milhões, e em Santiago (Chile) há 5,5 mil para 5 milhões – Paraguai, Uruguai, Peru e Bolívia têm números conflitantes nesta área.

Bem, conflito é o que não falta quando se fala em moradores de rua.

Sobretudo quando se fala dos nossos “homeless”: cerca de 16 mil para uma população de 11,9 milhões de paulistanos.

Aumenta, diminui, mas fica por aí. Entra prefeito, sai prefeito – direita, esquerda, centro – e o problema persiste, as políticas públicas são inócuas, um põe a culpa no outro – Marta Suplicy desancou Fernando Haddad em recente artigo na Folha, como se ela tivesse feito algo de realmente diferente quando governou a cidade…

Trata-se de uma questão irresolvível?

Talvez.

Por isso mesmo, pela delicadeza do tema e pelo mínimo de respeito que se deve a pessoas penalizadas pelo destino, há que ter cuidado, tato e generosidade.

“Limpar” a rua em nome da preservação do espaço público é de uma burrice fenomenal.

Ao permitir que sua militarizada guarda municipal fizesse isso, recolhendo liminarmente colchões, molambos e demais pertences dos moradores de rua mesmo com a temperatura glacial do fim de outono, o atual prefeito quebrou a cara.

Expôs inabilidade e insensibilidade ao mesmo tempo; voltou atrás, mas o estrago já estava feito.

Estrago que certamente impacta na popularidade de Fernando Haddad, que já anda bem mal das pernas: 7% das intenções de voto para as eleições deste ano, com a liderança (26%) do indescritível Celso Russomano…

Agora, convenhamos: as acusações de incompetência do Haddad tem fortes componentes de hipocrisia, seja por parte dos que querem “salvar” o povo de rua, seja dos que querem exterminá-los para deixar as calçadas limpinhas.

Um exemplo desta hipocrisia: como o assunto está na mídia e nas redes sociais por causa do frio, quem só agora passou a enxergar como gente este povo “sujo e malcheiroso” resolveu abrir o coraçãozinho: esta semana houve tanta doação de cobertores que ninguém sabe o que fazer com tanto pano.

Tipo assim: aqueça um pobre neste inverno e durma com a consciência tranquila…

 

(A foto acima foi feita por mim nos Jardins, área nobre da cidade, e é icônica da situação de quem não tem um teto, seja no frio ou no calor…)

 

Depressão e ansiedade, modo de usar com os outros

Nuvem

Qualquer pessoa que teve um episódio de depressão / ansiedade ou que convive com estes transtornos sabe: uma das coisas mais difíceis na vida da pessoa deprimida e/ou ansiosa é a convivência. Sobretudo a convivência com quem não entende, não faz nem um esforço para entender ou simplesmente se recusa a entender porque fulano ou fulana está daquele jeito.

É duro ouvir de parentes, amigos, gente que nos ama e que amamos ou apenas colegas de trabalho coisas do tipo: como ficar triste dentro de casa num dia tão lindo! Você tem a vida ganha, está ansioso com quê? Faz o seguinte: vai para rua, divirta-se e encontre pessoas que a tristeza vai embora! Putz, você tem que parar de tomar estes remédios de tarja preta, tente se acalmar que você melhora?

Hã hã!

Para quem está do lado de fora das nossas cabeças quando elas ficam destrambelhadas, tudo parece estranho e fácil: estranho de entender, fácil de resolver.

Não é nem uma coisa nem outra, mas o “mundo” em geral não entende. Pior: cabe justamente ao deprimido, ao ansioso, ao bipolar e afins tentar fazer com que pelo menos o deixem em paz. O que obviamente é também muito difícil.

Por isso, quando encontramos alguém que realmente está aberto a entender, disposto a ajudar e com a generosidade e paciência necessárias, que alívio!

Porque é muito difícil se comunicar adequadamente quando se trata do que estamos sentindo, e quando o que estamos sentindo não está de acordo com os padrões de comportamento dos viventes em geral.

Por conta disso, a norte-americana Haley French, ela também portadora de ansiedade crônica, alinhavou alguns sentimentos, contextos e explicações que podem ajudar, com amor e tolerância, tanto quem está do lado de dentro quanto do lado dessas tais cabecinhas ensandecidas. Ei-los:

 

“Às vezes não consigo encontrar uma explicação para sentir o que sinto.

Há momentos em que a minha ansiedade e depressão agem e eu não sei porquê. Infelizmente a minha doença não veio com um manual de instruções.

Se você ficar perguntando o tempo todo se eu estou ok, eu posso acabar me sentindo pior ainda. O constante questionamento pode me fazer entrar em pânico por não saber se estou agindo certo ou errado.

Quando eu começo a entrar em um episódio depressivo ou minha ansiedade dispara, eu tento me isolar. Eu me escondo no quarto ou fico um tempão fora da casa para tentar ficar longe das pessoas. Ficar sozinha nestes momentos significa mais para mim do que você jamais poderia saber.

Alguns dias é realmente impossível para mim sair da cama. Esta é uma coisa particularmente difícil para algumas pessoas entenderem. Sempre que fico na cama evitando minhas responsabilidades, eu gostaria de ser produtiva, mas me sinto paralisada. Não estou sendo preguiçosa ou querendo procrastinar, apenas não consigo fazer nada naquele momento.

Se eu não quero falar com ninguém, não tome isso como algo pessoal. Se eu digo “não” ao seu convite para sair ou não respondo a sua mensagem, não é que eu não quero te ver ou falar com você, mas às vezes eu não me sinto bem para falar com ninguém. Eu só preciso de algum tempo para resolver o que está acontecendo dentro da minha cabeça. Ir ao cinema ou trocar mensagens sobre o mais recente episódio de “The Game of Trones” me faz sentir como alguém que nunca vai conseguir sair de seu próprio cérebro.

Eu ainda me importo com você, provavelmente mais do que eu me importo comigo mesma. Quando eu realmente começar a te evitar, seja pelo tempo que for, não é porque você fez algo de errado. Eu me sinto como se você estivesse melhor sem mim, eu começo a pensar que sua vida será mais feliz sem que eu esteja nela.

Há dias em que me sinto completamente insensível às minhas próprias emoções. Se eu pareço um zumbi, é provavelmente isso o que eu sinto. Às vezes todas as minhas emoções parecem distantes para mim. Eu sei o que eu deveria estar sentindo, mas eu não consigo entender o sentimento em si. Como eu sei que você não vai entender isso, eu aprendi a agir como se eu estivesse sentindo a emoção que você espera de mim.

Há dias em que me enfrento muitas emoções ao mesmo tempo. Oposto ao não sentir nada, às vezes eu me sinto totalmente demais. Isto pode se manifestar de várias maneiras, posso estar triste, animada, irritada, esperançosa, desesperada, amor e ódio ao mesmo tempo. Então, se eu parecer que eu estou pulando de uma emoção para outra de forma extremamente rápida é porque eu estou tentando, sem conseguir, segurar uma emoção de cada vez.

Eu estou realmente tentando me sentir melhor. Eu não gosto de me sentir assim e eu nunca iria optar por ter uma doença mental. Mesmo que nem sempre indique isso, tudo o que faço é uma tentativa de me sentir melhor. Mesmo que seja algo que parece autodestrutivo, no momento eu sinto que isso vai me fazer sentir melhor.

Eu realmente agradeço tudo que você faz para mim. Eu sei que cuidar de alguém com uma doença mental é difícil, que tirar alguém de um episódio de depressão ou ansiedade é muito desgastante. Eu nunca vou ser capaz de expressar o quanto seu apoio significa para mim, seu apoio é o que faz meu problema suportável, e eu não posso expressar o quanto eu te amo por isso.”

 

 

 

 

A ditadura bate à sua porta

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Na semana passada foi criado um grupo no Facebook, que responde pelo nome de #eumelembro, que deveria ser visitado por todos. É um tapa na cara.

Deveria ser visto sobretudo por aqueles que estão preocupados com a crescente onda de conservadorismo que assola o país, pelo recrudescimento das atitudes fascistas por parte de diversas personalidades públicas e pelo assustador apoio que atitudes desta natureza tem encontrado na sociedade, inclusive por parte de gente digamos assim “do bem”.

Bastaram poucos dias para que a iniciativa da jornalista Fernanda Danelon reunisse dezenas de depoimentos de pessoas que viveram, assistiram ou apenas conhecem histórias da repressão truculenta perpetrada pela ditadura brasileira (oficialmente, de 1964 a 1985). Em geral são histórias familiares, que pouco ou nada têm a ver com as alegações utilizadas pelos militares para prender, torturar, matar: são subversivos, terroristas!

Não, longe disso, a maioria das personagens dos depoimentos ali postados, inclusive por gente que sofreu a tortura na própria pele, é composta de pessoas comuns, que apenas discordavam, que tinha opinião divergente, eram a favor da democracia, defendiam a liberdade de pensamento.

Mas não podia, era obrigatório aderir ao “Brasil Grande”, ao “País que vai pra frente” e coisas do gênero.

Esta iniciativa na internet presta um inestimável serviço para nossa história. Sempre digo que é preciso lembrar para não esquecer. Não esquecer o absurdo de não poder dizer que se é contra, não poder ler ou possuir o livro que você quiser, assistir ao filme que mais lhe aprouver, reunir-se para falar de política, candidatar-se, opor-se. Ah, mas houve exageros e luta armada. Sim, houve quem ousasse enfrentar todo o aparato bélico utilizado pelo Estado para aniquilar seus “inimigos”. Advinha quem venceu?

Por isso, mais do que nunca, é preciso conhecer a história dos derrotados para entender o absurdo da repressão e da truculência, sua covardia. Mesmo que atraindo a ira dos que odeiam a liberdade e a divergência.

É preciso, enfim, fortalecer esta nossa incipiente democracia, antes e agora ameaçada.

No momento achincalhada por abjetos com Bolsonaro e sua homofobia, seu racismo e sua defesa ostensiva da tortura como instrumento de conquista e/ou manutenção do poder.

Cena filme Batismo de Sangue
Cena de pau-de-arara do filme “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton

Para estas pessoas, pau-de-arara, choque elétrico nas genitais, afogamentos e assassinatos são justificáveis para conter um tal perigo comunista que nem existe mais.

O mais assustador é o alcance dessas ideias medievais propagadas por Bolsonaro: sua fanpage no Facebook tem mais de 3 milhões de seguidores, ou seja, milhões de pessoas que concordam que gays devem ser combatidos, negros enquadrados, mulheres intimidadas e inimigos, torturados. Mais absurdo ainda é que há grupos de ativistas gays de direita que propagam as ideias de Bolsonaro – entre elas a de a “doença” gay se cura na porrada. Pode? Pode sim, e tem mais.

E para fechar com “chave de ouro” este rol de insanidades, o agente da ditadura e torturador assumido coronel Brilhante Ustra foi-se recentemente, mas deixou uma biografia em que “justifica” seus atos hediondos. Pois bem, o livro encontra-se esgotado e com fila de espera para adquiri-lo.

Diante deste horror que se propaga, é preciso, repito, lembrar para não esquecer.

As histórias do #eumelembro cumprem bem este papel.

A vida por um fio

Homem por um fio

Andar pelas ruas de São Paulo é uma aventura, nem sempre agradável.

Para quem é de fora ou para quem não sabe, São Paulo tem, a rigor, três centros.

O “centro velho” é o centro histórico, donde se encontra a Catedral da Sé, marco zero da cidade, pertinho do Pátio do Colégio, onde os jesuítas começaram a ocupar o lugar dos índios e ergueram uma parede que está lá até hoje.

O “centro novo” não é nada novo, desenvolveu-se com a instalação do viaduto do Chá, a construção do Teatro Municipal e a urbanização da Praça da República – uma ex praça de touros -, cujo desenho e paisagismo poderia ser uma coisa linda, mas não é, posto que está desde sempre mal cuidada e suja.

E tem o chamado “centro financeiro” da cidade, que nada mais é que a avenida Paulista.

A geografia do miolo principal da cidade de São Paulo é na verdade muito simples, delimitado por dois rios: Tietê ao norte, de onde se chega rapidamente aos centros velho e novo, o espigão da Paulista lá alto de uma coluna cortando a urbe de leste a oeste, e os Jardins descendo na direção sul sudoeste, até chegar ao rio Pinheiros – os pontos cardeais não são muito precisos, mas é por aí.

Agora, a geografia humana da cidade de São Paulo é muito, muito complexa.

Vai dar uma voltinha pelos três “centros” que isto fica rapidamente evidente, na cara.

Ontem fiz isso, por motivos diversos andei a pé e de metrô pelos centros e depois pela Paulista, voltando à região central, onde moro, muito perto do símbolo da excrescência urbana paulistana que é o Minhocão.

Seja em qual canto for, a cidade assusta.

Pelo número de pessoas circulando, pelo número excessivo de carros tentando circular, pelas calçadas esburacadas e lotadas, pelo transporte subterrâneo entupido de gente que também circula mal.

E pela pujança que se traduz em prédios gigantescos, comércio alucinadamente variado e em contrastes, gigantes, surpreendentes, invasivos contrastes.

Da imensa fila de pessoas diante da placa de “precisa-se de auxiliares” na República ao rio humano transbordante da ligação subterrânea entre as linhas verde e amarela do metrô; dos executivos desfilando seus ternos bem e mal cortados nas cercanias da Fiesp aos deserdados que fazem das calçadas da cidade sua própria casa, a vida pulsa, mas parece que está sempre por um fio.

Por um fio como o operário da minha foto aí em cima, solitário higienista de uma urbe encardida no seu cinza eterno.

Mas há um denominador comum a todos os centros e a todos os cantos, que é sintetizado nos baixos do Minhocão: os moradores de rua.

Estão por todo canto desde há muito, fazem parte da paisagem paulistana.

Mas nesta época do ano – o frio chegou a 13 graus esta semana – eles se tornam mais carentes, evidentes, notáveis em seu anonimato.

Seja se multiplicando nos cruzamentos e esquinas pedindo um trocado, seja se enrolando em cobertores imundos e papelões velhos nos cantos e desvãos, não menos sujos.

E o Minhocão, sempre ele, se converte, sobretudo nas noites geladas, na grande vitrine da desigualdade e do desterro.

Eu moro perto do Minhocão há 13 anos, mas circulo por suas redondezas há muito tempo, mais de 30 anos.

Neste período já “comandaram” esta cidade insana Reynaldo de Barros, Salin Curiati, Mario Covas, Jânio Quadros, Luiza Erundina, Paulo Maluf, Celso Pitta, Régis de Oliveira (apenas um mês no cargo), Marta Suplicy, José Serra, Gilberto Kassab e atualmente Fernando Haddad.

Como se vê, partidos, tendências políticas, estatura moral, visão de mundo bem diversas, divergentes ou não.

Mas nenhum deles conseguiu dar um jeito de tirar este número cada vez maior de pessoas – sim, são pessoas, não andrajos – do relento.

Uma remediada aqui, um improviso ali, mas resolver resolver mesmo…

Anos atrás, um amigo então ligado à Prefeitura me disse que há na cidade mais vagas em abrigos do que gente morando de fato na rua – boa parte daqueles que andam pelo centro moram longe e pessimamente, em barracos mal ajambrados nas franjas da cidade, preferem dormir na rua e mais perto de comida e algum dinheiro.

O problema, dizia meu amigo, é que você não pode obrigar os moradores de rua a irem para os abrigos, vão apenas se quiserem ir, e, segundo consta, não querem.

Conforme levantamento realizado no ano passado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – Fipe o número de pessoas em “situação de rua” chega a 16 mil. Em 2000 era metade disso. E claro que a população da cidade cresceu na mesma proporção, o que seria uma justificativa.

E justificativas há muitas (toda cidade do mundo tem gente morando na rua, é a crise, o desemprego blablablá), mas o que não há é solução, como se fosse assim mesmo e assim acaba ficando.

Qual a solução? Eu não sei, mas também não me candidato a prefeito nem sou nomeado secretário, que têm a obrigação de encarar este e tantos outros problemas da cidade.

Mas o fato é que este problema é desumano, vergonhoso e urgente, dói na vista e no coração.

Pior que isso só a maneira como tratamos nossas crianças e nossos idosos nesta São Paulo de Piratininga.

Mas esta é uma outra história que fica para uma outra vez…